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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Slavoj Zizek fará palestra no Recife em março


O pensador esloveno, um dos mais polêmicos e famosos filósofos contemporâneos, vem a cidade fazer uma palestra e autografar seu novo livro

Publicado em 21/01/2013, às 11h24

Do JC Online




Filósofo virá ao Recife para lançar também o seu último livro, uma recuperação do pensamento de Hegel

Reprodução

O filósofo esloveno Slavoj Zizek, um dos críticos culturais e pensadores políticos mais conhecidos no mundo acadêmico atual, vem ao Recife no dia 15 de março. O teórico participa do evento ArtFliporto Apresenta, promovido pela Editora Carpem Diem em parceria com a Boitempo Editorial, que promove um debate para o lançamento da nova edição da revitsta de cultura e ensaios quadrimestral. O preço dos ingressos e o local da palestra ainda não foram divulgados. Ele ainda fará uma noite de autógrafos na cidade.
Zizek é talvez o mais pop dos filósofos contemporâneos, chamado também de "Elvis Presley da Teoria Cultural”. Professor da European Graduate School e pesquisador sênior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, o esloveno tem uma forta atuação política em textos e em apoio a movimentos sociais como o Occupy Wall Street. Em março, ele vem lançar no Brasil o seu novo livro, Menos que nada: Hegel e a sombra do materalismo histórico, obra de mais de 900 páginas em que resgata a importância do pensamento de Hegel para entender o mundo atual.
“Ter Slavoj Zizek neste momento em que as redes sociais estão nos ajudando a pensar as formas de uso dos espaços públicos é fundamental. Slavoj Zizek é um provocador e com certeza o público recifense, que adora uma provocação, vai gostar da sua presença”, diz o jornalista e crítico literário Schneider Carpeggiani, editor da ArtFliporto.

Fonte: http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2013/01/21/slavoj-zizek-fara-palestra-no-recife-em-marco-70723.php

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O filósofo mais "perigoso" do mundo

Um guia para o pensamento sinuoso e contraditório (e surpreendentemente popular) de Slavoj Zizek, filósofo que recupera a ideia de "verdade" e nos alerta para a iminência de uma catástrofe mundial


Para a imprensa conservadora, ele é o “filósofo mais perigoso do Ocidente”, como lhe definiu a revista norte-americana New Republic. Para o jornal britânico Observer, ele é o “messias superstar da nova esquerda”. O próprio Zizek também não tem lá maiores reservas ao se definir. Entre outros epítetos, o autor esloveno se propõe como um “comunista atípico”, um “esquerdista radical” e um “socialista que faz oposição a Marx”. Seja como for, a despeito das ressalvas de seus críticos e dos exageros de seus entusiastas, Slavoj Zizek é, desabusadamente, um intelectual público, um pensador radical e prolífico que não teme seus paradoxos e expia publicamente suas próprias contradições.

“Atualmente, com sua obra traduzida para cerca de vinte línguas, embora suas ideias geralmente sejam complexas, nenhum outro filósofo contemporâneo se iguala a ele em popularidade”, defende o professor Christopher Kul-Want, diretor da Bryan Shaw School of Art, de Londres, e autor de Entendendo Slavoj Zizek: um guia ilustrado. O livro foi publicado recentemente no Brasil pela editora Leya e é assinado em parceria com o ilustrador Piero. “Quais são as razões para a popularidade de Zizek? Muitas pessoas anseiam ouvir um filósofo que se dedica a pensar profundamente sobre problemas globais, como a pobreza, a ecologia e a repressão política”, completa.

A tarefa do professor não é nada simples. O “fenômeno” Zizek é formado por uma multiplicidade de contextos e ideias que, no geral, nos conduz a resultados contraditórios. Como lembra o psicanalista Christian Dunker, professor livre docente da USP, Zizek move-se tão rapidamente e toma posições de tal forma contrastantes, que nunca se consegue dirimir exatamente qual é seu projeto. “(Ele) não é um pensador sistemático que nos convida para a arqueologia e a reconstrução do movimento de seus conceitos; mas também não corresponde ao intelectual edificante, ensaístico ou opinativo, interessado apenas em questões pontuais e intervenções localizadas”, explica.

Para Dunker, o modo mais eficaz de captar a lógica de seus textos é atentar para a constância de seu estilo, que se desenvolve como intelectual engajado, um pensador que, sobretudo, toma posições. Kul-Want se vale desse expediente para apresentar o pensamento do esloveno em seu livro. Ou seja, Entendendo Zizek é menos uma porta de entrada às ideias do que um mapeamento do estilo e do engajamento do filósofo.

Nesse mapeamento, Kul-Want destaca algumas características gerais: a escrita de Zizek nasce de uma abordagem retórica do pensamento (ele escreve como quem fala); sua participação em polêmicas se dá sem brigas ou disputas abertas, estratégia desenhada para criar um espaço em que o interlocutor tenha de se posicionar sobre suas responsabilidades políticas e pessoais; e, principalmente, sua obra acena para a retomada da ideia de “verdade”.

“Depois de Nietzsche, o que restou foi a noção liberal de que todos os valores e crenças, bem como suas verdades associadas, são relativos e parciais. Contudo, Zizek se baseia firmemente na ideia de verdade, apesar de ela ter se tornado suspeita ou fora de moda”, diz Kul-Want. “Ele não entende a verdade como uma ideia espiritual ou metafísica relacionada com a existência de Deus ou um conjunto de princípios universais ou leis que governam o significado e o pensamento”. Para o filósofo esloveno, a verdade é uma compreensão das relações de poder que controlam a sociedade e das ideologias que impedem a sociedade de realizar a liberdade social e política. “Ele é essencialmente um filósofo político. Sua ambição é intervir no discurso político por acreditar que isso pode afetar as ideias das pessoas e ajudar a transformar a sociedade”.

Esse compromisso com a política não é apenas uma opção teórica. É, antes de tudo, para Zizek, uma questão de sobrevivência. Entre os tantos temas sobre os quais se debruça - da psicanálise ao cinema de Hollywood -, seus escritos convergem, no limite, para a denúncia de uma catástrofe mundial iminente e suas causas ideológicas. “Meu esquerdismo radical é mais o resultado de um insight pessimista. Vejo que estamos chegando perto de uma catástrofe, e não estou falando daquela profecia maia idiota”, Zizek explicou ao jornal Valor Econômico no ano passado. “Não se pode ir indefinidamente nesse caminho de desastres ecológicos, segregação racial, apropriação da criatividade intelectual e guerra biológica”.

O “perigo” de Zizek, afinal, talvez seja denunciar o quanto somos “perigosos” a nós mesmos.

SERVIÇO

Entendendo Slavoj Zizek
Autores: Chrstopher Kul-Want e Piero
Editora: Leya, 176 páginas
Quanto: R$ 24,90

Saiba mais

Slavoj Zizek
Nasceu em Liubliana, na antiga Iugoslávia, atual Eslovênia. Formou-se em filosofia e sociologia em 1971, pela Universidade de Liubliana. Atualmente, é professor no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana e é diretor internacional da Universidade de Birkbeck, de Londres.

Em português
Desde 1974, Zizek já publicou mais de 50 livros. Alguns de seus principais títulos publicados em português são:
O Sublime Objeto da Ideologia (Jorge Zahar) - 1989

Bem Vindo ao Deserto do Real (Boitempo) - 2004

Em defesa das Causas Perdidas (Boitempo) - 2011

Vivendo no fim dos tempos (Boitempo) - 2012

O Amor Impiedoso (ou: Sobre a Crença) (Autêntica) - 2012

Fonte: http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2013/01/08/noticiasjornalvidaearte,2984097/o-filosofo-mais-perigoso-do-mundo.shtml

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A verdadeira blasfémia


No caso Pussy Riot, a verdadeira blasfémia é a própria acusação do Estado, formulando como crime ou ódio religioso algo que foi claramente um ato político de protesto contra a clique governante. Por Slavoj Žižek, publicado em Dangerous Minds.



As Pussy Riot são acusadas de blasfémia e de ódio à religião? A resposta é fácil: a verdadeira blasfémia é a própria acusação do Estado, formulando como crime ou ódio religioso algo que foi claramente um ato político de protesto contra a clique governante. Recordem a velha ironia de Brecht na Ópera dos Três Vinténs: “O que é roubar um banco, comparado com fundar um banco?” Em 2008, Wall Street deu-nos a nova versão: o que é roubar um par de milhares de dólares, pelos quais se vai parar à cadeia, comparado com a especulação financeira que priva dezenas de milhares de pessoas das suas casas e poupanças, e é recompensada pela ajuda do Estado de grandeza sublime? Agora, temos outra versão, vinda do poder do Estado da Rússia: O que é uma modesta provocação obscena das Pussy Riot numa igreja, comparada com a acusação contra as Pussy Riot, esta gigantesca e obscena provocação do aparelho de Estado que escarnece de qualquer noção de lei e ordem decentes?

Será que o ato das Pussy Riot foi cínico? Há dois tipos de cinismo: o cinismo amargo dos oprimidos que desmascara a hipocrisia dos que estão no poder, e o cinismo dos próprios opressores que violam abertamente os seus próprios proclamados princípios. O cinismo das Pussy Riot é do primeiro tipo, enquanto o cinismo dos que estão no poder – porque não chamar a sua brutalidade autoritária de Prick Riot – é do muito mais nefasto segundo tipo.

Em 1905, Leon Trotsky caracterizou a Rússia czarista como “uma perversa combinação do látego asiático com a bolsa de valores europeia.” Será que esta designação não se aplica mais e mais também à Rússia de hoje? Não anuncia a subida da nova fase do capitalismo, capitalismo com valores asiáticos (que, evidentemente, nada tem a ver com a Ásia e tudo a ver com as tendências antidemocráticas no capitalismo global de hoje). Se entendemos cinismo como o pragmatismo rude do poder que se ri secretamente dos seus próprios princípios, então as Pussy Riot são o anti-cinismo incorporado. A sua mensagem é: as ideias contam. São artistas concetuais no nobre sentido da palavra: artistas que dão corpo a uma Ideia. Foi por isso que usaram balaclavas: máscaras de desindividualização, de anonimidade libertadora. A mensagem das suas balaclavas é que não interessa qual delas foi presa – elas não são indivíduos, são uma Ideia. E é por isso que são tamanha ameaça: é fácil prender indivíduos, mas tentem prender uma Ideia!

O pânico dos que estão no poder – exibido pela sua reação ridiculamente brutal e excessiva – é assim plenamente justificada. Quanto mais brutalmente atuam, mais importante se tornará o símbolo das Pussy Riot. Para já, o resultado das medidas opressivas é que Pussy Riot se tornou um nome familiar literalmente em todo o mundo.

É um dever sagrado de todos nós evitar que as corajosas Pussy Riot não paguem na carne o preço de se terem tornado um símbolo global.

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

sábado, 30 de julho de 2011

Jorge Barcellos - "Desfruta ou te devoro. A nova onda do comunismo"

 Em duas obras recém-lançadas no Brasil, o esloveno Slavoj Zizek imagina alternativas para um mundo que vê marchar em direção a um capitalismo autoritário no modelo chinês. 

O artigo é de Jorge Barcellos, doutorando em educação pela UFRGS, coordenador do Memorial da Câmara Municipal de Porto Alegre, publicado no jornal Zero Hora, 09-07-2011. 

Eis o artigo. 

O que torna profundamente atual o pensamento do esloveno Slavoj Zizek, de quem a editora Boitempo acaba de lançar Em Defesa das Causas Perdidas e Primeiro como Tragédia, depois como Farsa, é seu trabalho sobre a ideologia. Não se trata da retomada de O Mapa da Ideologia, obra sua já conhecida dos brasileiros, mas do aprofundamento de aspectos de O Sublime Objeto da Ideologia (Siglo XXI, 2005, inédito no Brasil). Nesse livro de 2005, Zizek integrou de forma original as percepções psicanalíticas da fantasia à crítica marxista da ideologia. Isto lhe lhe permitiu, pela primeira vez, propor uma teoria de como funciona a ideologia no plano subjetivo: “Não existe a crença comum, o que existe é a crença em que os outros creem”. 

Zizek reconstrói os processos que fazem homens, em determinadas circunstâncias, justificarem e darem um ar de verdade a uma mentira, numa espécie de construção coletiva . O “vamos fingir que as regras funcionam” oculta, entretanto, o fato de que as instituições no capitalismo contemporâneo estão falidas e ninguém de fato acredita nelas. Agimos como na fantasia de Papai Noel: nem os adultos nem as crianças acreditam mais nele. Pior: agimos assim com nossas instituições, inclusive com a democracia. A subjetividade também está sob tremenda pressão da ideologia: cuidado, o capitalismo quer dar um significado a sua vida, diz Zizek. Ele toma como exemplo os anos que passamos consumindo publicidade, uma das melhores formas de se pensar o que acontece com nossa subjetividade. Nos anos 1960, a propaganda automobilista vendia as qualidades de um carro; nos anos 1970, o status que ele oferece ao consumidor para finalmente, hoje, ser a promessa de libertação da sociedade opressora. 

Para Zizek, o capitalismo contemporâneo é profundamente ideológico: “A política desse capitalismo é a despolitização para que não haja mais uma ideologia clara”. Na sociedade de consumo (um conceito caro a Baudrillard), a ideologia vendida é a ideologia da diversão como na expressão latina Carpe diem (“Aproveitem o dia”). Nada mais comprovador do conceito de Lacan – apropriado por Zizek – de gozo excedente, um gozo que nos suborna para mascarar os nossos problemas. A solução, para Zizek, é o retorno à noção de economia política tal como proposta por Marx: politizar a economia, e é nesse sentido que Zizek mais se aproxima de outro teórico do marxismo, Robert Kurz. A ideologia do capitalismo contemporâneo, sustenta Zizek, quer que acreditemos que a economia não tem nada haver com a política: ela quer uma sociedade apolítica, e para isso constrói a ideia de que é besteira discutir política. Nisto reside a radicalidade de Zizek: ele quer que a democracia se garanta sem as influências das pressões de mercado. 

Yannis Stavrakakis, em A Esquerda Lacaniana – Psicanálise, Teoria, Política (Fondo de Cultura Econômica, 2010, inédito no Brasil), deu-se conta que o pensamento de Zizek consolidou-se ao longo dos últimos 15 anos, período em que a psicanálise e a teoria lacaniana passaram a ser recursos importantes na reorientação da teoria política contemporânea. Essa posição, para qual boa parte dos cientistas políticos torce o nariz, origina-se no próprio pensamento de Lacan, que não foi apolítico – ao contrário, fez críticas ao American way of life, ao capitalismo americano e à sociedade de consumo, o que o levou a associar sua noção de mais-gozo à noção de mais-valia de Marx. Nesse caminho estão Zizek, Cornelius Castoriadis, Alain Badiou e especialmente Ernesto Laclau, para quem “a teoria lacaniana aponta ferramentas decisivas para a formulação de uma teoria da hegemonia”, daí a definição de seu horizonte teórico-politico em termos de “esquerda lacaniana”, nítido campo de intervenções políticas e teóricas a partir da psicanálise – mas não somente dela – que parte para a crítica da hegemonia capitalista contemporânea. 

Em Primeiro como Tragédia, depois como Farsa, lançado simultaneamente pela Verso (Londres) e Flamarion (Paris) em 2009, Zizek pergunta se estamos preparados para a história que se impõe sobre nossas cabeças desde os ataques de 11 de Setembro. Ele mostra as manobras por detrás das ideologias levantadas pela atual crise (2008) e que levou bilhões de dólares para os bancos. Para Zizek, o que é profundamente ideológico é tratar as crises do capitalismo como algo estranho ao próprio capitalismo, ideia que deseja vender a imagem de um mercado capitalista regulado de outro modo. Ao contrário, ele nos mostra cada vez mais o capitalismo sobrevivendo abaixo de terapias de choque, num mercado que exige violência extramercado para seu funcionamento. 

Já na obra Em Defesa das Causas Perdidas, Zizek vai contra o pensamento hegemônico que vê a democracia liberal, as vezes dita pós-moderna, como o melhor dos mundos frente ao passado das lutas comunistas. Isso não quer dizer que as “causas perdidas” que defende estejam abrigadas pelo teto do Fórum Social Mundial: para Zizek, seu lema “Um outro mundo é possível” mostra que seus protagonistas ainda relacionam-se demais com a estrutura já posta pelo capitalismo. Para fazer seu caminho, ele faz a opção por retornar ao marxismo a sua maneira, o que tem o peculiar efeito de chamar a atenção mundial sobre sua obra: não há dúvida, o que Zizek faz é tornar sedutor o marxismo para as novas gerações. Para isso articula Lacan, Hegel e Marx com cinema, música, cultura popular e a crítica dos objetos de consumo. Em Defesa das Causas Perdidas, entretanto, padece do problema comum aos grandes pensadores contemporâneos: como produzem demais, escrevem demais, torna-se frequente encontrar traços de obras anteriores nas seguintes. Não há como deixar de ver no capítulo 2, Lições do Passado, o eco de suas obras anteriores sobre Robespierre e Mao, ou dos estudos anteriores que fez sobre o stalinismo publicados em espanhol. Há, entretanto, reflexões sobre o pensamento de Heidegger extremamente originais e que não haviam aparecido anteriormente, contudo. E é claro, Zizek sempre é um grande contador de causos que sintetizam brilhantemente suas ideias. Em um determinado momento de sua obra, ele cita a ficha de um hotel americano: “Prezado cliente: para garantir que você vai desfrutar sua estadia conosco, o fumo está totalmente proibido neste hotel. Qualquer violação deste regulamento resultará numa multa de US$ 200”. Assim é o capitalismo, diz Zizek: estamos condenados a ser castigados se recursarmos a desfrutá-lo plenamente. Zizek quer nos mostrar o cinismo do capitalismo contemporâneo em sua caminhada em direção a um capitalismo autoritário, contrário ao direitos humanos, como anuncia o caso chinês. E o grande perigo é que ele pode estar certo.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Oscar Pilagallo - "O sistema está aí, e a história continua"

Para Slavoj Zizek, quatro “antagonismos” põem em xeque a economia de mercado 

Seria muito fácil descartar como ultrapassado ou extemporâneo um livro que, mais de duas décadas depois da queda do Muro de Berlim, considera que ainda há no horizonte uma hipótese comunista. 

Antes de deixar o pequeno volume de lado, no entanto, o leitor interessado nos desafios do capitalismo deveria prestar atenção em duas ou três observações de Slavoj Zizek sobre algumas fragilidades do sistema hoje hegemônico. 

O livro se insurge contra a tese do “fim da história” de Francis Fukuyama, segundo a qual, com a ausência da polarização ideológica desde o desmoronamento do comunismo, o capitalismo se impôs de tal maneira que não pode mais ser confrontado, restando apenas a possibilidade de reformas para aprimorá-lo. 

Em seu livro, Zizek sustenta que a história continua viva. O título é tirado da resposta de Marx a Hegel em O 18 de brumário de Luís Bonaparte. Na atualização de Zizek, a tragédia foram os ataques de 11 de setembro de 2001. A farsa seria a crise financeira mundial, a partir de 2008. Os dois eventos, diz o filósofo esloveno, desmontam a concepção de Fukuyama. 

Ao contrário de muitos analistas de esquerda, no entanto, Zizek não cai na esparrela de ficar aguardando a crise terminal do capitalismo a cada solavanco das economias mais ricas. Pensador sofisticado, ele identifica fissuras mais estruturais — daí a relevância de seu livro, independentemente da ideologia do leitor: onde o comunista lerá oportunidades, outros poderão ler alertas. 

O autor identifica quatro “antagonismos” que ameaçam o sistema capitalista global: o perigo da catástrofe ecológica, a inadequação da noção de propriedade privada em relação à propriedade intelectual, as implicações socioéticas da biogenética e as novas formas de apartheid, como muros para conter a imigração e favelas. 

Esses são fatores estruturais. Mas Zizek se debruça também sobre a conjuntura atual. Sobre a bilionária operação de salvamento do sistema bancário, nota a “superposição inesperada” da visão da esquerda com a dos conservadores. De fato, enquanto o documentarista iconoclasta Michael Moore falou em “roubo do século”, os republicanos falaram em “socialismo de Estado”. 

Para o filósofo, não se trata de nenhuma das duas coisas. É claro que não é socialismo — “se for, é de um tipo muito peculiar”, para ajudar os ricos, e não os pobres. Mas também não é roubo. “O slogan populista ‘salvem o povo das ruas, não Wall Street!’ é totalmente enganoso, uma forma de ideologia em seu grau mais puro, porque passa por cima do fato de que, no capitalismo, o que sustenta o povo das ruas é Wall Street! Sem ela, o povo das ruas se afogará no pânico e na inflação”. E conclui: “O paradoxo do capitalismo é que não se pode jogar fora a água suja da especulação financeira e preservar o bebê saudável da economia real”. 

É por isso que Zizek afirma que os democratas que apoiaram o plano de salvamento “não foram incoerentes com sua orientação esquerdista”. Embora não poupe elogios a Barack Obama, o filósofo admite que a atitude do presidente americano não é favorável à perspectiva comunista. “A verdadeira tragédia de Obama é que ele tem toda a probabilidade de vir a ser o derradeiro salvador do capitalismo e, como tal, um dos grandes presidentes conservadores americanos.” 

Como foi possível a Obama capitanear tal processo? Para Zizek, há coisas progressistas que só um conservador consegue fazer. Foi, por exemplo, o republicano Nixon que restabeleceu relações com a China. Da mesma maneira, há coisas conservadoras que só um progressista é capaz de fazer. Foram as credenciais progressistas de Obama, diz Zizek, “que lhe permitiram impor os ‘reajustes estruturais’ necessários para estabilizar o sistema”. 

O autor considera ingênua a esperança de que a crise “abra necessariamente espaço para a esquerda radical”. Seu primeiro efeito, ao gerar o medo, seria, ao contrário, a reafirmação “das premissas básicas da ideologia dominante”. Daí a possibilidade de a principal vítima não ser o capitalismo, “mas a própria esquerda, na medida em que sua incapacidade de apresentar uma alternativa global tornou-se novamente visível a todos”. 

Se o edifício do capitalismo suporta bem o abalo da crise financeira, haveria algo que pudesse comprometê-lo? 

Talvez o distanciamento entre capitalismo e democracia. Ao longo de décadas, e com raras exceções, o sistema econômico e o regime político foram inextricáveis. A China, no entanto, tem praticado o capitalismo num ambiente autoritário, ou, como diz Zizek, “com valores asiáticos”. É um exemplo de que “o potencial autêntico da democracia [...] está perdendo terreno hoje para a ascensão do capitalismo autoritário, cujos tentáculos vêm se aproximando cada vez mais do Ocidente”. 

Ele lembra outros dois exemplos: “O capitalismo de Putin, com seus ‘valores russos’ (demonstração violenta de poder) [e] o capitalismo de Berlusconi, com seus ‘valores italianos’ (exibicionismo cômico)”. 

Tais realidades contrastam com os tempos em que o capitalismo absorvia mudanças sociais, incorporando as ameaças ao sistema como novos valores. Foi assim depois de Maio de 68, quando “o novo espírito do capitalismo recuperou triunfantemente a retórica igualitária e anti-hierárquica [...], apresentando-se como uma revolta libertária bem-sucedida contra as organizações sociais repressoras”. 

Zizek não é, evidentemente, um democrata. Para ele, eleições “tendem a refletir a doxa predominante determinada pela ideologia hegemônica”. Mas não despreza a liberdade formal burguesa “que pôs em marcha o processo de demandas e práticas políticas ‘materiais’, do sindicalismo ao feminismo”. Reduzir isso a mera ilusão “seria cair na velha hipocrisia stalinista”, que zombava da ineficácia das liberdades burguesas, mas as proibia. 

Sim, Zizek é também um crítico do comunismo. Não aceita, por exemplo, o argumento de que Stalin teria traído a revolução. Se o comunismo não deu certo, é porque havia erros no próprio marxismo, e não apenas em sua aplicação. Embora conceba o comunismo como uma “ideia eterna”, rejeita voltar ao ponto em que a experiência foi interrompida. Para ele, é preciso zerar. A propósito, cita Samuel Beckett várias vezes: “Tente de novo. Erre de novo. Erre melhor”. 

Saudado como uma novidade no campo teórico da esquerda, o autor sabe jogar com os elementos midiáticos que lhe projetam uma imagem de filósofo pop. Carismático e intenso, Zizek cita filmes de Hollywood com a mesma naturalidade com que usa o jargão marxista. Pode ser debatido numa arena política ou citado num jantar inteligente — e nesse caso será útil saber como se pronuncia seu sobrenome: é jijék. 

Primeiro como Tragédia, Depois como Farsa é um livro que se lê no ritmo acelerado em que parece ter sido escrito. O estilo agitado é também caudaloso, mas o autor consegue evitar digressões, voltando sempre em tempo ao argumento principal: as mazelas do capitalismo. 

Aliás, trata-se de algo em comum com Marx: Zizek tem mais a falar sobre o sistema econômico em que vive do que aquele em que sonha viver. 

***

Oscar Pilagallo é jornalista, autor de A Aventura do Dinheiro (Publifolha).

Paulo Lima - "Slavoj Zizek: o filósofo pop"

Reprodução do texto originalmente publicado no Balaio de Notícias 

O burburinho no foyer do Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, só crescia à medida que se aproximava o momento de abertura do auditório, marcado para as 14 horas. Em cartaz, a segunda rodada de palestras do seminário Revoluções, uma política do sensível. No programa, filósofos de longínquos quadrantes gastariam o verbo para discorrer sobre os grandes desafios da contemporaneidade. O título do seminário não deixava margem a dúvidas. Estaria em curso um desfile de ideias, por assim dizer, de viés esquerdista. Por suposto, esperava-se a presença de grupos organizados de movimentos sociais e suas indefectíveis bandeiras, a proferir palavras de ordem. Ledo e rotundo engano. A impressão é que toda a jeneusse dorée de Sampa estava por lá, moçoilas e rapagões a trocar impressões filosóficas numa ágora improvisada no espaço e no tempo. 

Havia uma explicação para tamanho frisson. O convidado do dia, responsável pelo grand finale do seminário, era ninguém menos que o filósofo esloveno Slavoj Zizek. Com suas performances pontuadas por gestos estabanados e declarações polêmicas, Zizek conseguiu atrair os holofotes da mídia como um insigne porta-voz das causas perdidas, resgatando da mofa e do oblívio termos como comunismo e revolução. 

Num canto do foyer, um estande improvisado punha à venda os livros do filósofo lançados no Brasil pela Boitempo Editorial. Pelo programa do dia, Zizek daria uma sessão de autógrafos após a palestra, rabiscando seus gatafunhos para a posteridade. Na atmosfera descontraída do teatro, podia-se respirar séculos de saber filosófico. Um rapagote discorria com entusiasmo sobre as ideias zizekianas, deixando bem claro para seu interlocutor que não era possível entender o mestre sem antes ter lido Kant, Hegel e, naturalmente, Lacan. 

Já passava das 17 horas, quando um mediador de gestos calmos anunciou o nome de Slavoj Zizek, depois de falar os rapapés de praxe. Adentrando o palco pelo lado esquerdo – palavra! -, Zizek venceu a distância até a mesa num segundo, como se impulsionado por uma descarga elétrica. Aboletou-se em sua cadeira, tirou o relógio do pulso e o pôs sobre a mesa para controlar o tempo, conferiu algumas folhas amarfanhadas e deu início a sua peroração. 

Em poucos minutos, Zizek levou a plateia à primeira gargalhada da tarde, uma entre muitas que viriam, graças a sua habilidade em entremear conceitos, piadas e exemplos extraídos de fatos do cotidiano, principalmente de filmes de Hollywood, muitos deles analisados pelo filósofo à luz da psicanálise lacaniana. Onze de setembro de 2001, crise financeira de 2008, Bill Gates, Obama, Hitler, Stalin, tudo funciona como referência para suas diatribes contra aquilo que chama de “farsa do liberalismo econômico”. 

Por suas referências marxistas e menções a Stalin, Zizek tem sido acusado por seus críticos de defender certa postura totalitária. Mas ele tenta pôr os pingos nos ii. “Marx defendia a transformação das relações sociais. Não há mensagem totalitária nisso”. Aplausos, risadas, excitação da plateia, que se diverte como se estivesse num programa de auditório. Em sua palestra, Zizek faz questão de eliminar as camadas vetustas do léxico filosófico. Nada de episteme, doxa, gnose ou assemelhados. Com uma dicção peculiar que o faz acentuar a pronúncia dos esses como num crepitar, Zizek fala um inglês carregado porém fluente, pondo por terra uma certa máxima tupiniquim de que só é possível filosofar em alemão. 

Por seus gestos irrequietos, o filósofo recebeu o epíteto de “Elvis da filosofia”, que ele aceitou. No palco, seus cacoetes incluem esfregões reiterados no nariz, que descem para o queixo e terminam com um safanão nos cabelos. Sua torrente verbal é também pontuada por puxões na camisa e extrema agitação das mãos, como se quisesse exortar uma multidão invisível. Zizek mostrou que é um ótimo frasista. “Não sou um catastrofista”, disse ele, numa alusão ao título de sua palestra – “Revolução: quando a situação é catastrófica, mas não é grave”. E, para quem o acusa de professar o memento mori do capitalismo, surpreendeu o público com mais uma colocação aparentemente contraditória. “O capitalismo não é só exploração, mas uma forma eficiente de organização”. Como um bom provocador, cutucou velhas bandeiras (“A sustentabilidade é um mito”). E expôs o receituário que explica o fracasso das revoluções passadas: “Se você tem um projeto, tem que incluir como esse projeto vai dar errado”. Por seu sabor atemporal, a frase poderia ser usada como um ensinamento típico da autoajuda. Por que não? Zizek atingiu o proscênio ao teorizar os fenômenos sociais e culturais por meio de uma análise que põe no mesmo liquificador a psicanálise de Lacan, a filosofia de Marx e Hegel. Numa de suas frases, proferida em alto e bom som, ele disse: “Sou um hegeliano”. A rigor, não é o primeiro filósofo a atingir o status de pensador discutido por um público mais amplo. Outros luminares já frequentaram as hostes midiáticas com leituras criativas da sociedade e, como que obliterados por uma espécie de lei implacável do esquecimento, retornaram aos muros da academia e aos índices remissivos. Enumeremos alguns: Claude Lefort e Cornelius Castoriadis, nos anos 1980; Noam Chomsky e Jürgen Habermas, nos anos 1990; Pierre Bourdieux e Jean Baudrillard, nos anos 2000. Grosso modo. 

A cortina já estava prestes a descer, quando Zizek disparou mais uma de suas frases de efeito: “O comunismo é o grande problema central hoje”. Seu tempo de palestra acabou. Aplausos frenéticos, como ao final de um show. Zizek surpreendeu-se com os primeiros papelotes que chegaram às mãos do mediador, contendo as perguntas enviadas pela plateia. O filósofo levou as mãos à cabeça, num teatral gesto de desespero. Mas respondeu todas, com o mesmo vigor com que iniciou sua palestra. Deixou o palco com o mesmo arranque com que entrou, e lá ao canto do palco foi cumprimentado por Emir Sader e outras personalidades que foram ouvi-lo. Zizek é pop.

sábado, 23 de julho de 2011

Quando Lady Gaga e Zizek tiveram um affaire

"Há um grupo de esquerda anárquica aqui em Londres que me odeia", diz Slavoj Zizek com uma risadinha afetada, enquanto nos acomodamos em um dilapidado sofá de couro num bar de hotel em Bloomsbury. Ele está usando meias fornecidas gratuitamente por uma companhia aérea, uma camiseta italiana que alguém lhe deu e uma calça jeans que poderia ter sido feita décadas antes em uma fábrica fracassada de tratores soviéticos. "Mas, que se dane, vamos falar francamente, sem rodeios --a maior parte da esquerda me odeia, apesar de eu supostamente ser um dos mais importantes intelectuais comunistas do mundo."
Zizek chama o garçom e pede chocolate quente, Diet Coke e muito açúcar ("sou diabético"). Está desapontado, me diz entre parênteses, porque não estamos fazendo a entrevista no adjacente bar Virginia Woolf, que serve hambúrgueres. "Como seria um hambúrguer Virginia Woolf?", indaga. "Ressecado, coroado com salsinha, totalmente superestimado. Eu sempre preferi Daphne du Maurier." Então, ele se lança em uma crítica às pretensões de James Joyce, argumentando que a carreira literária de Joyce desandou depois de "Dublinenses", e, em seguida, em um panegírico ao minimalismo radical de "Not I", de Samuel Beckett. Dentro de minutos, já passamos para as visões do filósofo alemão Peter Sloterdijk sobre o milagre econômico da Malásia, as perspectivas do curso de teoria do cinema que Zizek vai dar em Ramallah e a produção feita por Katarina Wagner de "Die Meistersinger von Nürnberg" (os mestres cantores de Nuremberg), em que Hans Sachs é retratado como um nazista saudador de Hitler. Como leitor ou entrevistador de Zizek, a tarefa que nos cabe é rapidamente construir uma rede de pontes suspensas mentais para interligar os territórios intelectuais dele, aparentemente autônomos.

De volta aos anarquistas obscuros. Foram eles (o pessoal de relações públicas de Zizek sugere que seja um grupo de estudantes armados não com bombas incendiárias, mas com uma conta falsa no Facebook) que o caluniaram online, declarando que ele estaria tendo "uma coisa" com a cantora Stefani Joanne Angelina Germanotta, também conhecida como Lady Gaga. Foi uma brincadeira, é claro, mas que setores do que Sarah Palin descreve como a mídia "lamestream" (a grande imprensa boba) resolveram passar adiante, entre eles o "New York Post" e o britânico "Daily Star", tendo este último divulgado: "Amigos de Lady Gaga temem que o esloveno Slavoj Zizek esteja enchendo a cabeça dela de ideias extremistas".

O que irritou o não-lorde Gaga não foi tanto a inversão dialética hegeliana injustificada (com certeza, teria sido mais plausível que ele fosse corrompido pelas ideias extremistas dela, não?), mas o fato de a falsa página do Facebook ter alegado que Lady Gaga e Zizek consolidaram seu relacionamento desconstruindo a ideologia patriarcal, o feminismo e a responsabilidade humana coletiva. Foi uma calúnia intolerável: "Eu não falo desse tipo de coisa. Dá para imaginar uma noite mais chata do que essa?". Então, como você teria passado uma noite com Lady Gaga? Ele ri discretamente, mas evita responder (Zizek faz muitas coisas enquanto conversa, mas responder perguntas não é uma delas).

"Meu erro foi que eu não deveria ter desmentido o relacionamento categoricamente à imprensa. Eu deveria ter dito 'nada a declarar', deixando em aberto a possibilidade obscena de eu ser amante dela." É possível que haja uma brecha em sua vida amorosa: Zizek foi casado com a filósofa eslovena Renata Saleci e com a modelo e estudante lacaniana argentina Analie Hounie, mas se nega a me dizer se elas têm uma sucessora atual. Ele tem dois filhos, um de 30 e poucos anos, o outro com 10 anos de idade.

DYLAN DA FILOSOFIA

O hegeliano lacaniano esloveno de 62 anos está em Londres não para confrontar anarquistas importunos, mas para promover seu livro "Living in the End Times" (vivendo no fim dos tempos) e debater com Julian Assange sobre o significado do WikiLeaks. Zizek é professor da European Graduate School, na Suíça, diretor internacional do Instituto Birkbeck de Humanidades da Universidade de Londres, pesquisador sênior do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana e professor visitante habitual em uma ou outra universidade americana. Ele raramente está em casa, em seu apartamento na capital eslovena: é a resposta da filosofia a Bob Dylan, vocalista de um show itinerante ao vivo que não dá sinais de que vá terminar.

O livro, que ele não hesita em criticar ("escrevi sobre 'Avatar' antes de ter visto o filme, mas, tendo visto, tive razão em atacá-lo... A sugestão de que o capitalismo estaria prestes a desabar talvez seja uma fantasia, reconheço"), representa o que seu pensamento tem de melhor e de pior: seus relâmpagos de genialidade revelam uma mente que parece ser incapaz de acompanhar um pensamento por mais de uma página e meia.

Sua performance com Assange e com a jornalista americana radical Amy Goodman no teatro Troxy, na zona leste de Londres, mostrou ser melhor --em parte performance teatral com o efeito de murchar a pomposidade, em parte crítica devastadora do capitalismo contemporâneo. "Tenho que subverter esses eventos", ele me diz mais tarde. "As perguntas piedosas, os discursos solenes. Meu Deus, como é possível assistir a essas coisas até o fim sem ter vontade de contar uma piada?"

Cerca de 40 minutos depois de iniciado o evento, ele cedeu à tentação e, por um momento, se metamorfoseou em Frankie Boyle, comediante escocês. "'Tenho uma notícia boa e outra ruim', diz um médico a um marido. 'Sua mulher está viva. A má notícia é que ela está com incontinência anal e vaginal tão grave que não pode ter relações sexuais.' O marido fica revoltado. Qual é a graça? O médico está apenas brincando: a boa notícia é que a mulher morreu." Vale a pena assistir à cena no YouTube apenas para registrar como Goodman e Assange se esforçam heroicamente para esconder sua repulsa. Assange, não custa reconhecer, também conservou a compostura quando Zizek o chamou de terrorista. "Você é terrorista da maneira como Gandhi foi. Em que sentido Gandhi foi um terrorista? Ele tentou impedir o funcionamento normal do Estado britânico na Índia. Você está tentando impedir o funcionamento normal da circulação de informações."

Zizek estava falando totalmente a sério. Ele escreveu sobre isso em um ótimo ensaio, argumentando contra uma interpretação liberal do WikiLeaks que reduz seu impacto a "um caso radical de 'jornalismo investigativo'. Aqui, estamos a apenas um passo da ideologia de blockbusters de Hollywood como 'Todos os Homens do Presidente' e 'O Dossiê Pelicano', em que dois sujeitos comuns descobrem um escândalo que chega até o presidente, forçando-o a renunciar. Comprova-se que a corrupção chega até o mais alto escalão, mas a ideologia de obras como essas reside em sua mensagem final e otimista: nosso país deve ser um grande país, considerando que dois sujeitos comuns como você e eu podemos derrubar o presidente, o homem mais poderoso da Terra!"

"Na realidade, não descobrimos nada de novo com o WikiLeaks", ele me diz mais tarde. "Julian é como o garoto que nos conta que o imperador está nu --até o garoto dizê-lo, todo o mundo podia fazer de conta que o imperador não estava nu. Não confunda isso com o heroísmo burguês comum que afirma que existe podridão, mas que o sistema é basicamente sadio. É como um homem que descobre que sua mulher anda transando com outros --até que ele enxergue em detalhes o que ela vem fazendo, pode fazer de conta para si mesmo que não está acontecendo nada de errado. Julian joga por terra esse fingimento. Todo poder é hipócrita dessa maneira. O que o poder acha insuportável é quando a hipocrisia é desnudada."

OBSCENIDADE ASQUEROSA

Zizek toma um pouco de chocolate quente e limpa a barba. "Falando francamente, eu não deveria ser este homem que fala de 'O Cavaleiro das Trevas' e de Hegel, sobre os valores do WikiLeaks e de Lady Gaga. Eu deveria ser um medíocre professor de filosofia em Liubliana." Ele nasceu em 21 de março de 1949 na capital eslovena, na então Iugoslávia, de pai (Joe) economista e mãe (Vesna) contadora. Teve uma infância infeliz. "Eu lia sozinho, num isolamento freudiano que me preparou para o mundo em toda sua obscenidade asquerosa." Ele me olha com expressão animada: "Espero que, quando você escrever isto, não seja o jornalista de merda normal que sempre é fiel aos fatos. Espero uma distorção criativa de minha biografia. A verdade é superestimada: sempre fui mais feliz sozinho. Por que isso seria algo interessante de ler?"

Ele subestima sua vida. Adolescente, Slavoj queria ser diretor de cinema, mas deixou essa ambição de lado depois de ser seduzido por Hegel. Como outros filósofos eslovenos em ascensão, foi influenciado pelas leituras do "Capital" de Marx feitas pelo filósofo Boidar Debenjak, sob o viés da Escola de Frankfurt, desde a perspectiva da "Fenomenologia do Espírito", de Hegel. "Hegel é tudo para mim. Suas obras reunidas ainda são o bem que eu mais prezo", diz ele. Porém, mais tarde, ele foi seduzido pelos pós-estruturalistas franceses --Derrida, Kristeva e, sobretudo, o teórico da psicanálise Jacques Lacan. Zizek foi demitido do cargo de pesquisador assistente da Universidade de Liubliana quando sua tese de doutorado foi rejeitada por ser não marxista. Passou quatro anos prestando serviço militar e outros quatro desempregado, antes de conseguir trabalho como escrivão no Centro Marxista Esloveno, onde se envolveu com acadêmicos engajados com a psicanálise lacaniana.

Ele passou o início da década de 1980 em Paris, estudando psicanálise com Jacques-Alain Miller e François Regnault, retornando então à Eslovênia, onde se uniu a grupos dissidentes que criticavam o regime de Tito. "Fui membro do Partido Comunista até 1988, quando se tornou revoltante permanecer em um partido que defendia o militarismo." Após a queda de Tito, Zizek --que já se tornara uma figura celebrada em seu país, como colunista da revista alternativa jovem "Mladina" e como um dos líderes do Comitê para a Defesa dos Direitos Humanos-- decidiu candidatar-se à Presidência da República da Eslovênia nas primeiras eleições livres, em 1990. Concorreu pelo partido Democracia Liberal e alcançou a quinta colocação. "A política", ele reflete, "sempre foi uma coisa desprezível. É algo em que eu me envolvo frequentemente contra minha vontade. Meu interesse primeiro é a teoria. Sou um hegeliano em busca de fatos que se encaixem na teoria."

Durante esse período, ele desenvolveu seu estilo literário em revistas e periódicos dissidentes, com pensamento marxista, hegeliano e lacaniano justaposto a análises críticas do cinema e da cultura popular, apresentadas em um equivalente escrito (e às vezes exasperante) de uma improvisação jazzística. Seu primeiro livro a sair em inglês, "The Sublime Object of Ideology" (o objeto sublime da ideologia), de 1989, levou esse estilo a um público mais amplo. Empregou exemplos da alta e baixa cultura para explicar seu entendimento da dialética de Hegel, a tese básica que fundamenta todas as suas análises e que constata que a contradição é a condição interna de cada identidade. A contradição era também a condição interna de Slavoj Zizek, confirmando o ditado de Oscar Wilde: "Os bem-educados contradizem outras pessoas. Os sábios contradizem a si mesmos". "Meu pensamento se movimenta tão rapidamente --como poderia deixar de estar repleto de contradições?", pergunta Zizek.

Mais livros em inglês se sucederam rapidamente, incluindo "Eles Não Sabem o que Fazem" (1991, um livro que apresenta o ressurgimento do nacionalismo militante e do racismo nos ex-países socialistas da Europa do Leste como uma erupção lacaniana de gozo), "Tarrying with the Negative: Kant, Hegel and the Critique of Ideology" (demorando-se com o negativo: Kant, Hegel e a crítica da ideologia) (1993), "Bem-Vindo ao Deserto do Real" (2002), "A Visão em Paralaxe" (2006) e "Em Defesa das Causas Perdidas" (2008).

PENSADOR 2.0

Esses livros (e vários outros) valeram a Zizek muitos elogios. Terry Eagleton o descreveu como "o mais assustadoramente brilhante expoente da psicanálise --em verdade, da teoria cultural em geral-- surgido na Europa em algumas décadas". A diretora de cinema Sophie Fiennes, que o dirigiu em "The Pervert's Guide to the Cinema" (o guia cinematográfico dos perversos), um documentário de 2005 do Channel 4 em que ele propõe análises maravilhosamente lacanianas de alguns de seus filmes favoritos, fala: "Zizek é um pensador próprio para nossas vidas turbulentas, em alta velocidade, comandadas pela informação, precisamente porque ele insiste na liberdade de parar e pensar profundamente sobre quem você é como indivíduo nesta sociedade fragmentada." O "Chronicle of Higher Education" o descreveu como "o Elvis da teoria cultural".

O textinho de divulgação na sobrecapa de seu novo livro diz que ele fez a filosofia ser relevante para toda uma geração de leitores politicamente engajados. Zizek discorda. "Boa parte do que eu escrevo é blablablá, bobagem, algo que desvia minha atenção do livro de 700 páginas sobre Hegel que eu deveria estar escrevendo."

Em 2009, respondendo a um chamado de seu amigo, o filósofo parisiense Alain Badiou, pela reconsideração do comunismo, Zizek participou de uma conferência em Londres para testar a noção de que o capitalismo estaria (mais uma vez) prestes a se fragmentar em função de suas próprias contradições, e que, portanto, era imperativo teorizar o futuro emancipado. Ele então coeditou "The Idea of Communism" (a ideia de comunismo), um livro que exorta camaradas que abandonaram o comunismo a hastear a bandeira vermelha outra vez. "Não tenha medo, junte-se a nós, volte!", escreveu Zizek. "Você já curtiu sua diversão anticomunista e foi perdoado por ela. É hora de voltar à seriedade!"

Você é ou alguma vez já foi comunista? "Não como você poderia imaginar. Marx escreveu sobre os bens comunais --ele se referia à terra e à propriedade. Eu me refiro à informação. Quando pagamos aluguel a Bill Gates, isso é um novo tipo de cerco. O WikiLeaks representa uma ameaça a esse tipo de controle da informação."

Você realmente acredita em uma sociedade desse tipo? "Sou filósofo, não profeta. Não respondo perguntas, mas as formulo para fazer uma crítica de nossa sociedade. Walter Benjamin disse que cabe ao pensador de esquerda não andar no trem da história, mas aplicar o freio. É importante, também, não dizer o que todas as outras pessoas estão dizendo. É entediante, por exemplo, eternamente criticar os Estados Unidos. Por que não criticar a China, em vez disso? Afinal, é na China que foram proibidas as obras de ficção que visualizem mundos alternativos --eles têm medo da imaginação de seus cidadãos. É a China que está colonizando a África."

Em "Living in the End Times", Zizek imagina como seria uma nova sociedade comunista. Ele vê como protótipos tanto o seriado "Heroes", de 2006, da NBC, quanto o romance de 1953 de Theodor Sturgeon "More Than Human". Ambos têm "a ideia central de uma comunidade alternativa de pessoas aberrantes, onde um grupo de párias forma um novo coletivo" baseado em suas capacidades psicofísicas incomuns (telecinesia, telepatia e assim por diante). Zizek escreve: "A união deles como o novo Um cria as condições para que suas peculiaridades desabrochem. Esse coletivo estranho não nos recorda a afirmação de Marx de que, em uma sociedade comunista, a liberdade de todos será fundamentada na liberdade de cada indivíduo?" Como a descrição feita por Marx da sociedade comunista, isso certamente é demasiado incompleto para fundamentar uma plataforma política. "Sou totalmente pessimista quanto ao futuro, quanto à possibilidade de uma sociedade comunista emancipada. Mas isso não significa que eu não queira imaginá-la."

É hora de Zizek partir. "Meu filho e eu vamos assistir a 'Transformers'." Ele se refere ao terceiro e último capítulo da péssima franquia. Parece que é muito ruim, eu o previno. "Já fui ver outros filmes muito ruins. Sempre há alguma coisa que vale a pena ser vista."

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Filósofo Slavoj Zizek e Lady Gaga podem estar vivendo romance, segundo jornal

O celebrado filósofo marxista Slavoj Zizek e a cantora Lady Gaga teriam desenvolvido uma "forte amizade", segundo informações do New York Post. Com o término do relacionamento entre Gaga e seu namorado de longa data, Luc Carl, a cantora foi vista diversas vezes recentemente com o filósofo de 62 anos, que também é amigo de Julian Assange, durante sua turnê no Reino Unido e nos Estados Unidos.
Fontes do Post dizem que Gaga e Zizek discutem feminismo e criatividade humana. Em março, a cantora também esteve com o intelectual durante palestras dele na greve do sindicato acadêmico inglês UCU. De acordo com a publicação, Zizek, assim como Salman Rushdie, tem fama de atrair mulheres bonitas e já foi casado com a modelo argentina Analia Hounie.
Num post intitulado "Communism Knows No Monster" ("O comunismo não conhece monstros", em tradução livre), Slavoj Zizek teria dito que Gaga era "sua boa amiga" e que suas roupas, vídeos e mesmo suas músicas trazem uma mensagem. Segundo ele, o vestido de carne da cantora é uma referência à "ligação entre o imaginário opressivo do patriarcalismo do corpo feminino e a carne, entre o animalismo e o feminino".
O site Wikileaks anunciou no eBay a venda de oito lugares para um jantar com Zizek e Julian Assange em um dos "mais refinados restaurantes de Londres". Na última sexta-feira (17), o preço por pessoa já chegava a US$ 5 mil.
Zizek, que se descreve como um "comunista no senso qualificado" e um "esquerdista radical" será professor visitante na New York University, faculdade em que Gaga estudou. Ele irá ensinar alemão no segundo semestre.
O representante da cantora se recusou a comentar sua relação com Zizek. Já o filósofo diz que a única ligação que compartilha com a cantora foi o apoio à greve da UCU. "Estou muito triste em desapontá-los, mas esses boatos são mentira!", disse.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Slavoj Zizek, um sujeito incômodo

"Em que espécie de mundo estamos quando Hollywood precisa retirar o sexo dos filmes?", pergunta Slavoj Zizek, ao comentar a súbita frigidez de James Bond no último episódio da saga, "Quantum of Solace" , um sinal da "economia do medo" que, segundo ele, rege as relações humanas contemporâneas.
Provocador nato e defensor ousado de uma nova encarnação do comunismo, Zizek vem ao Brasil nesta semana para divulgar seus últimos livros lançados no país: "Em Defesa das Causas Perdidas" e "Primeiro como Tragédia, Depois como Farsa". Em São Paulo, no dia 21, participa do Projeto Revoluções (inscrições em revolucoes.org.br), organizado pela editora Boitempo. No dia 24, fala no Cine Odeon, no Rio, para as mais de 2.000 pessoas que se inscreveram para vê-lo.
Em entrevista à Folha, por telefone, ele apontou sua metralhadora teórica na direção de assuntos como levantes populares, bullying e falsa liberdade.
*
Folha - No livro "Em Defesa das Causas Perdidas", o sr. defende a "hipótese comunista", uma alternativa ao capitalismo, e fala em ditadura do proletariado. Essa terminologia não gera resistência?
Slavoj Zizek - Quero deixar claro que o comunismo do século 20 está morto e que não sou um ingênuo que acredita num grande retorno do Partido Comunista. O stalinismo foi a materialização do horror. Defendo o uso desses termos porque qualquer conservador moderno de direita sai por aí dizendo que precisamos de mais solidariedade.Por outro lado, são termos que se referem à memória coletiva da humanidade e remetem a momentos em que existiram explosões populares igualitárias verdadeiras. Não se trata de repetir o modelo fracassado, mas de preservar o momento em que foi possível ter a liberdade de pensar e agir segundo a ideia de que o capitalismo não é um fato dado.
Joao Wainer/Folhapress
O filósofo esloveno Slavoj Zizek durante visita à Folha, em 2003
O filósofo esloveno Slavoj Zizek durante visita à Folha, em 2003
Um de seus argumentos para defender o comunismo é a questão da propriedade intelectual. Por que diz que o conceito de conhecimento é comunista?
O conhecimento é naturalmente comunista, o que quer dizer que já inclui a ideia de algo feito para ser compartilhado. E isso não pode ser transformado numa "commodity" de mercado. Vamos pensar em apenas dois exemplos importantes: a propriedade do patrimônio biogenético e ecológico, incluindo aí todas as recentes descobertas científicas, o genoma etc.Estamos falando do controle privado da nossa substância genética e do ambiente em que vivemos. O conhecimento é nossa substância simbólica e pertence a todos, não pode ser de grupos privados. Outro dia, um grupo de estudantes me pediu originais de um livro meu para "pirateá-lo" entre os colegas. Atendi imediatamente.

Em "Primeiro como Tragédia, Depois como Farsa", o sr. fala que a crise de 2008 foi um embuste que revelou novas formas de colonialismo. Que formas são essas?
A crise de 2008 foi uma farsa no sentido de que foi um reflexo esperado das medidas tomadas nos EUA em 2001 --redirecionar o foco das empresas de internet que estavam falindo para o mercado imobiliário. É claro que a bomba estourou, mas a novidade é que essa crise planejada afetou os países muito seletivamente.
O Brasil passou bem pela crise...
Lula entendeu algo muito importante, que a esmagadora maioria da esquerda mundial não entende: o capitalismo de hoje não é um sistema hegemônico. Está cheio de inconsistências e divisões internas. A crise de 2008 foi uma crise do capitalismo global, mas, ao mesmo tempo, nos mostrou que estamos entrando numa era multicêntrica. Antes, se as economias norte-americana e dos principais países europeus iam bem, tudo ia bem. Agora, as coisas mudaram.Isso pode ser bom por um lado, pois podemos pensar que o imperialismo norte-americano não é mais tão poderoso. Mas também traz um novo perigo: já podemos falar da emergência do colonialismo econômico chinês. A China patrocina governos corruptos locais para poder explorar recursos minerais, por exemplo, e manter seu lugar de destaque no mercado.
Aqui, queria fazer um parêntese e uma crítica a Lula. Talvez para mostrar que o Brasil não é mais dependente dos EUA, ele apoiou Mahmoud Ahmadinejad quando as eleições foram contestadas no Irã. Para mim, foi um erro terrível.
A seu ver, Lula deveria ter apoiado o outro lado?
Sim! Mir Hossein Mousavi, o candidato que foi roubado nas eleições, não era mais um liberal pró-ocidental oportunista. Na verdade, representava a verdadeira alternativa democrática: veio da revolução liderada por Khomeini [levante islamista que derrubou a monarquia no Irã em 1979].Mousavi estava no caminho dos levantes que começaram recentemente no Egito e na Tunísia, fenômenos nos quais tenho alguma esperança. Ninguém esperava isso: que exatamente nos países árabes tivéssemos movimentos democráticos emancipatórios desse tipo.

Por que países como a França e a Inglaterra ficaram tão reticentes quanto ao levante no Egito?
O discurso norte-americano e da Europa Ocidental foi sempre o seguinte: as intervenções nos paí¬ses árabes acontecem no sentido de evitar levantes fundamentalistas e estimular a liberdade, a luta pela democracia etc. Muito bem: é exatamente isso o que aconteceu no Egito, e eles não ficaram contentes, mudaram o discurso. Mas de fato há razões para que eles fiquem assustados.O que está acontecendo no Egito não é simples. Não se trata apenas de um "queremos ser uma democracia liberal". As pessoas no Egito estão lutando por algo diferente, por algo novo.
O importante é o que acontece no que chamo de "o dia seguinte", ou seja, como as reivindicações são institucionalizadas em uma nova ordem.
E como lê a situação da Líbia?
O episódio Gaddafi não traz nada de novo. É a repetição da fórmula que inclui intervenção militar, envio de ajuda humanitária etc. Ou seja, é um episódio que pode ser lido dentro da lógica da guerra ao terror americana. A Líbia não vive nada realmente novo, ao contrário do Egito.
O sr. estabelece uma relação direta entre capitalismo e bullying. Por que esse último se transformou numa espécie de paranoia mundial?
O paradoxo é o seguinte: de um lado, temos a permissividade capitalista, e do outro, uma sociedade mais regulada do que nunca. Ou seja, em princípio, não há regras rígidas a serem seguidas, mas, ao mesmo tempo, tudo o que você disser ou fizer pode ser apontado como ofensa ou ameaça.O cerne da questão trata do velho problema cristão de "amar o próximo". Cada vez mais, nosso próximo é percebido como ameaça em potencial. Isso tem ligação direta com a política do medo pós-11 de Setembro. Com a desculpa de proteger a população de possíveis novos atentados, os níveis de vigilância chegaram a patamares absurdos, liberdades foram cassadas e o clima de pânico, instaurado. A verdade é que, apesar de todo o discurso liberal, vivemos numa das sociedades mais controladas de todos os tempos.
Existe algo muito errado com essa subjetividade ultranarcisista que está surgindo desse cenário. Temos de falar de um exemplo muito importante: o ato sexual apaixonado está sendo abandonado. O último filme de "James Bond", por exemplo, "Quantum of Solace" (2008), é o primeiro da série em que não existe uma cena de sexo entre Bond e a "Bond girl". Em "O Código da Vinci" também não há sexo, embora o ato sexual exista nos romances que deram origem ao filme.A indústria do cinema sempre teve o papel de acrescentar sexo aos roteiros para torná-los mais atraentes. Então, em que espécie de mundo estamos quando Hollywood precisa retirar o sexo dos filmes? Estamos falando de uma economia de relações baseada no medo.

O sr. tem batido muito na tecla da "farsa ecológica" alimentada pela culpa das elites. Não existe de fato uma ameaça ecológica?
Existem problemas graves, é óbvio, mas as soluções para eles não estão nas "ecobags" ou noutra idiotice desse tipo. Entre as classes média e alta, é chique dizer que você é "consciente", que recicla lixo e se preocupa com o ambiente. Isso é imbecilidade, me desculpe.É praticamente uma superstição, algo que tira a sua culpa e faz você se sentir bem. Os ecologistas radicais são os maiores críticos desse tipo de ritual da elite, eles chamam isso de "lifestyle" ecologista e pesquisas provam que o impacto positivo desse tipo de atitude no cenário global é irrelevante.

Nos livros "Em Defesa..." e "A Visão em Paralaxe", o sr. aponta as favelas como foco potencial de ideias de organização revolucionárias. Não há também uma idealização dos favelados?
Sim, é claro. Não se trata de idealizar os pobres como vítimas boa¬zinhas. Meus amigos intelectuais do Rio queriam me levar num desses passeios turísticos pelas favelas cariocas, uma coisa horrível. O que penso é que nas favelas há a organização dos que foram ou ainda são excluídos pelo poder público. É claro, há o tráfico e as igrejas que suprem essa falta, mas isso pode mudar. As favelas não precisam de caridade, precisam de alianças.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Marxistas, los preferidos de Lady Gaga

En medio de su ruptura con su novio Luc Carl, resultó sorpresiva la decisión de la cantante de pasar demasiado tiempo con el autor de El espinoso sujeto y Cómo leer a Lacan, mientras ella estaba de gira por el reino Unido y Estado Unidos esta primavera

Un rumor ha rondado a la diva del pop, Lady Gaga, en torno a un romance con el filósofo esloveno de 63 años de edad, Slavoj Žižek. 

El diario estadounidense New York Post, informó el pasado lunesque Gaga ha entablado una fuerte amistad con el crítico posmoderno del capitalismo global, quien es también amigo de Julian Assange. 

En medio de su ruptura con su novio Luc Carl, resultó sorpresiva la decisión de la cantante de pasar demasiado tiempo con el autor de El espinoso sujeto y Cómo leer a Lacan, mientras ella estaba de gira por el reino Unido y Estado Unidos esta primavera. 

Según las fuentes, la cantante de Judas y Žižek, han discutido largamente sobre el feminismo y la creatividad humana colectiva. 

Gaga también ha apoyado al filósofo esloveno, quien estuvo casado con la modelo argentina Analía Houni, en un mitin realizado el pasado marzo en Londres, cuando el sindicato de profesores, University and College Union (UCU), se encontraba en huelga. 

“Disculpen que los decepcione, pero todo esto es falso, lo único que compartí con ella, fue su apoyo para el golpe”, declaró el filósofo. 

El filósofo esloveno escribió en su blog un post titulado “El comunismo no conoce ningún monstruo”, en referencia a su apodo Madre Monstruo, en el cual llamó a Gaga una buena amiga. 

Al respecto de su excéntrico vestuario señaló que era “un constante recuerdo al imaginario opresivo del patriarcado del cuerpo femenino y la carne, de la animalidad y lo femenino”. 

Lady Gaga ha estrenado recientemente el video para su canción The edge of glory mientras que Žižek acaba de anunciar que dictará, este otoño, clases de alemán en la Universidad de New York , (NYU), donde la cantante estudió alguna vez y donde vive actualmente. 

Por otra parte, se rumora que la joven cantante estadounidense Ke$ha, de 25 años, acaba de iniciar un romance con Fredric Jameson, crítico literario y teórico marxista de 78 años de edad. 
“No podrían pensar que tenemos cosas de las que hablar. Hay mucho de qué hablar, es difícil no hablar de algo. ¡A él le encanta hablar!”, afirmó Ke$ha sobre su relación. 

La revista Vanity Fair informó el pasado lunes que hace tres semanas, en una fiesta en los Hamptons organizada por la actriz Ashley Tisdale, Ke$ha arribó en compañía del crítico posmoderno. 

“F es increíble, podría estar quejándome del director de mi video, y él solo pondría todo en perspectiva, así como, ‘El fin del ego burgués, o mónada, sin duda trae consigo el final de las psicopatologías de tal ego -lo que he estado llamando la disminución de los afectos. Pero significa el fin de mucho más-el final, por ejemplo, de estilo, en el sentido de lo único y personal, el final de la pincelada individual distintiva (simbolizado por la primacía emergente de la reproducción mecánica)’ o algo así, y tiene razón", declaró la cantante. 

Añadió que debido a que Jameson es profesor en Duke, la larga distancia complica su relación.

¿Lady Gaga de novia con un filósofo marxista?

La cantante de 25 años habría iniciado un romance con el académico Slavoj Zizek, de 62. Él lo niega, pero los rumores se multiplican.


La excéntrica Lady Gaga da que hablar todos los días. Con su más reciente trabajo “Born this way” en las bateas, ahora parece que comenzó una nueva relación amorosa. 

Según los rumores, la cantante habría dejado al DJ Luc Carl para iniciar un romance con el filósofo marxista Slavoj Zizek. 

Parece que para Lady Gaga, de 25 años, el amor no tiene edad y no le importa que Zizek tenga 62. 

Sin embargo, el filósofo negó los rumores en su blog personal al publicar: "El comunismo no conoce ningún monstruo" refiriéndose a "Mother Monster".

Lady Gaga y el filósofo marxista Slavoj Zizek

Lady Gaga y uno de los mayores exponentes del marxismo, Slavoj Zizek, nos sorprenden con la curiosa novedad de una relación amorosa.

Después de que la extravagante cantante terminara su relación de 2 años con Luc Carl, decidió en su última gira de primavera por el Reino Unido y los Estados Unidos, pasar bastante tiempo con el filósofo posmoderno de 62 años, y amigo de Julian Assange, Slavoj Zizek.

Las fuentes dicen que así como con la ex esposa de Zizek, la modelo argentina Analía Houni (como un imán de mujeres hermosas) con la cual discutía sobre el feminismo y la creatividad humana colectiva, la cantante de pop decidió apoyar a Zizek en un mitin en marzo en Londres, cuando el sindicato de profesores del UCU estaba en huelga.

En un blog reciente, ttitulado “El Comunismo No conoce Ningún Monstruo” (por su apodo “madre monstruo”) el marxista la define como “Mi buena Amiga”, y dice “hay un desplante de teoría en sus vestidos, videos,  e incluso en alguna de su música”, También dice que su vestido es “un consistente recuerdo al imaginario opresivo del patriarcado del cuerpo femenino y la carne, de la animalidad y lo femenino”.

Slavoj Zizek, quien se ha calificado como un “izquierdista radical”, va a ser profesor visitante de alemán en la Universidad de Nueva York  (NYU), donde la cantante estudió alguna vez, y donde reside actualmente.

Zizek declaró “disculpen que los decepcione, pero todo esto es falso, lo único que compartí con ella, fue su apoyo para el golpe”, refiriéndose al incidente en Londres.

Fuente: El Comercio

La enigmática relación entre Lady Gaga y el filósofo Slavoj Zizek

Esta semana, el New York Post vinculó a la princesa pop y al pensador marxista en un romance. Zizek, quien menosprecia el cotilleo, sorprendió al hablar sobre eso. La cantante, en cambio, eligió el silencio.

¿Qué sucede cuando dos personalidades influyentes y sumamente reconocidas en lo suyo pero diametralmente opuestas se encuentran? Lo más probable es que la conjunción no sólo no pase desapercibida, sino que también consiga arrojar chispas imposibles de ignorar. 

Esta semana, un rumor puso el acento en la colisión entre dos universos enfrentados: el de la parafernalia “popera”, industrializada y efectista de Lady Gaga, y el de la crítica marxista y lacaniana del filósofo esloveno Slavoj Zi?ek. La cantante y el pensador se habrían conocido hace algunos meses y, según versiones, fueron profundizando una extraña relación a la que algunos ya le pusieron el rótulo de “noviazgo” y que otros comprenden sencillamente como una alucinación mediática sin demasiados fundamentos. 

Bella y bestia. A mediados de marzo, los huelguista de la UCU –asociación que nuclea a académicos, investigadores y demás personal de las universidades británicas– hicieron una llamativa convocatoria. “Clase abierta con Zi?ek y Lady Gaga”, publicaron desde su espacio en Facebook. 

La noticia, claro, no tardó en esparcirse por blogs, páginas de Internet hechas por fanáticos de la diva y cuentas de Twitter. Después de todo, no es cosa de todos los días que un ícono del pop y un reconocido hombre de letras se unan para apoyar una causa en contra del deterioro de los salarios en el ámbito educativo. La cita se pautó para el martes 22 de marzo, cuando en una clase abierta ambas personalidades harían explícito su apoyo al reclamo. 

Casi en simultáneo, un blog publicó un artículo con la firma del filósofo que llevaba por título “El comunismo no conoce monstruos”, en obvia referencia al apodo con el que la cantante neoyorkina se hace conocer entre sus seguidores. “Este martes, Lady Gaga y yo estaremos en Birkbeck en respaldo a la huelga que lleva adelante la UCU”, comenzaba el relato, que luego se detenía en una serie de observaciones filosóficas sobre el mensaje que la estrella pop llevaba a las masas a través de las letras de sus canciones, el contenido de sus videos y hasta su estrafalaria vestimenta. 

De hecho, en un pasaje del texto hasta se detenía en el controvertido atuendo hecho con carne vacuna que la flamante diva lució durante los MTV Awards del año pasado, al que conectó con “el imaginario opresivo del patriarcado sobre el cuerpo de la mujer”. 

De alguna manera, Zi?ek parecía ensimismado en “justificar” la presencia de la cantante en la protesta universitaria haciendo pie en lo contestario de su mensaje. “Enfáticamente, Gaga dice ‘llamamos contrario a la naturaleza lo que llamamos contrario a la costumbre’ y ‘sólo aceptamos lo normal y eso nos hace ciegos a ver el prodigio de que no hemos visto nunca antes’. La mentira más grande del capitalismo es quizás su naturalización”, finalizaba el ensayo publicado en un blog dedicado a pensadores revolucionarios. 

Cara de póquer. Esta semana, el prestigioso New York Post se hizo eco de la estrecha relación que la cantante, de 25 años, y el filósofo, de 62, habrían forjado. “Lady Gaga ha trabado una fuerte amistad con el misterioso marxista Slavoj Zi?ek”, rezaba la nota, que contaba cómo ambos habían comenzado a pasar cada vez más tiempo juntos al punto de que él había aceptado la oferta de convertirse en profesor invitado de la Universidad de Nueva York a partir de septiembre para estar más cerca de su “nueva amiga”. 

Zi?ek, separado en 2009 de la ex modelo y periodista argentina Analía Hounie, dio su versión de los hechos al periódico en cuestión. “Lamento decepcionarlos, ¡pero es todo mentira! Lo único que comparto con ella es el apoyo a la huelga (de la UCU)”, aseguró. Gaga, en cambio, eligió llamarse a silencio, aunque se sabe que volvió recientemente a la soltería tras romper con su novio, el DJ Luc Carl. 

Pero hay más: según trascendió en las últimas horas, el filósofo también negó que el artículo publicado en marzo haya sido escrito por él. “No tengo nada que ver con ese blog”, aseveró. “Incidentalmente hay algunos sitios de Facebook (sic) que aseguran hablar en mi nombre, pero es todo falso. Nunca participé en ninguna de las mierdas de Twitter o Facebook”. 

A pesar de su poca afición por las redes sociales y su mirada crítica hacia el mundo capitalista, Zi?ek también fue noticia esta semana por una curiosa subasta por Internet que lo tenía como protagonista: el ofrecimiento de sentarse a almorzar con él y con su amigo personal Julian Assange –el controvertido fundador de WikiLeaks– en un distinguido restaurante londinense, el próximo sábado 2 de julio. A la fecha, se supo que el “mejor postor” ofertó 4.700 libras por el encuentro, y su nombre será revelado recién en los próximos días.

Fonte: http://www.diariopanorama.com/seccion/espectaculos_18/la-enigmatica-relacion-entre-lady-gaga-y-el-filosofo-slavoj-zizek_a_93977

Democracy Now!: WikiLeaks, Wimbledon e a guerra

No início de julho, a apresentadora e ativista americana Amy Goodman, que mantém o site Democracy Now!, mediou debate entre o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, e o filósofo esloveno Slavoj Žižek., no Reino Unido.

O primeiro sábado de julho foi um dia ensolarado em Londres. Os ingleses aproveitaram a ocasião para acompanhar o torneio de tênis em Wimbledon e a regata anual Henley. Enquanto isso, Julian Assange, o fundador do site WikiLeaks.org, partia de trem de sua prisão domiciliar em Norfolk, a três horas da capital, até o auditório Troxi de Londres, para juntar-se a mim e ao filósofo esloveno Slavoj Žižek numa conferência pública sobre o WikiLeaks, o poder da informação e a importância da transparência no sistema democrático.

Por Amy Goodman, no site Democracy Now!

O evento foi organizado pelo Frontline Club, uma organização fundada por correspondentes de guerra, em parte como homenagem a muitos companheiros mortos enquanto realizavam seu trabalho em frente à batalha. 

O co-fundador da Frontline Club, Vaughan Smith, olhou para o céu claro com uma inquietação incomum, e disse: “Os londrinos nunca vão a um evento em local fechado em um dia como este”. Apesar de anos de experiência trazendo informação exata do Afeganistão a Kosovo, neste caso, a avaliação de Smith estava equivocada.

Cerca de 1.800 pessoas assistiram ao evento. Uma prova do enorme impacto que o WikiLeaks vem provocando desde que começou a denunciar práticas de tortura e corrupção utilizadas para derrubar governos.

Assange está na Inglaterra à espera de uma audiência judicial que se realizará no dia 12 de julho, na qual tratará sua possível extradição à Suécia. A justiça sueca quer interrogá-lo sobre um suposto caso de abuso sexual. Embora não exista nenhuma acusação formal contra ele, Assange encontra-se em prisão domiciliar há mais de seis meses, leva um bracelete eletrônico e deve se apresentar diariamente na estação de polícia de Norfolk.

WikiLeaks foi oficialmente lançado em 2007 e tem por objetivo receber informação secreta filtrada por informantes, utilizando a tecnologia de ponta para proteger a identidade das fontes. A organização vem conseguindo um crescente reconhecimento mundial com a sucessiva publicação de grandes quantidades de documentos confidenciais dos Estados Unidos relacionados às guerras do Iraque e do Afeganistão, e milhares de telegramas das embaixadas dos Estados Unidos em todo o mundo.

Em relação às informações confidenciais dos dois conflitos bélicos, Assange disse que “proporcionaram uma imagem cotidiana da miséria da guerra: desde crianças assassinadas em blocos à margem das estradas até milhares de pessoas entregues à polícia iraquiana para ser torturadas, passando pelo que realmente significa o chamado ‘Apoio Aéreo’ (CAS, em sua sigla em inglês) e o método de combate militar moderno, tal como a vinculação disso com outras situações, a exemplo do vídeo que descobrimos sobre os homens que se rendem e são igualmente atacados”.

Os telegramas do Departamento de Estado estão sendo publicados pouco a pouco, gerando uma fonte permanente de vergonha para o governo dos Estados Unidos. Também inspira indignação e protestos a nível mundial, já que os documentos confidenciais revelam operações secretas e cínicas da diplomacia estadunidense. O “Cablegate”, como se chamou a maior revelação pública de documentos do Departamento de Estado na história dos Estados Unidos, foi uma das faíscas que incendiou a Primavera Árabe. Os tunisianos e iemenitas que viviam sob os regimes repressivos na Tunísia e Iêmen, por exemplo, sabiam que seus governos eram corruptos e cruéis. Mas ler os detalhes e ver até que ponto o governo dos Estados Unidos apóia estes ditadores ajudaram a iniciar a revolta.

Da mesma forma, milhares de telegramas relacionados ao Haiti e repercutidos pelo jornal independente Haiti Liberte e pela revista The Nation mostraram a ampla manipulação estadunidense na política e economia desse país. (O Democracy Now! foi mencionado em um dos documentos sobre o Haiti no qual se fazia referência a nossa abordagem a respeito daqueles que criticavam a atitude do governo Obama de negar os vistos já aprovados de 70 mil haitianos após o terremoto). Uma série de telegramas detalha as tentativas dos Estados Unidos de criar obstáculos para o envio de petróleo subsidiado da Venezuela a fim de proteger os interesses comerciais da Chevron e ExxonMobil. Outros telegramas mostram a pressão exercida pelos Estados Unidos para evitar um aumento do salário mínimo no Haiti a pedido das empresas de vestuário estadunidenses. Estamos falando do país mais pobre do Hemisfério Ocidental.

Em consequência do papel desempenhado como redator-chefe do WikiLeaks, Assange recebeu diveras ameaças e até mesmo ordens para que o assassinassem. O Vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, qualificou-o de “terrorista de alta tecnologia”, enquanto que Newt Gingrich afirmou que “Julian Assange está envolvido no terrorismo. Deveria ser tratado como um inimigo a ser combatido, e WikiLeaks deveria ser fechado de forma definitiva”.

De fato, as tentativas realizadas até este momento de acabar com o WikiLeaks fracassaram. Bank of America chegou a contratar várias empresas privadas de inteligência para coordenar um ataque contra a organização, que, segundo o que dizem, tem uma grande quantidade de documentos que revelam atividades potencialmente fraudulentas do banco. WikiLeaks também acaba de processar a MasterCard e o Visa, que deixaram de processar as doações realizadas com cartão de crédito através de sua web página.

O processo de extradição traz uma ameaça ainda maior para Assange: teme que a Suécia o mande logo em seguida para os Estados Unidos. Tendo em conta o tratamento recebido pelo soldado Bradley Manning, acusado de filtrar muitos documentos para o WikiLeaks, Assange possui motivos razoáveis para temer. Manning esteve em um confinamento solitário por quase um ano, em condições similares à tortura.

No evento em Londres, o apoio ao WikiLeaks foi impressionante. Mesmo assim Julian Assange não pode ficar para conversar com o público assim que acabou a conferência. Tinha apenas o tempo suficiente para voltar a Norfolk e retornar a sua prisão domiciliar. Independente do que acontecer com Assange, o WikiLeaks mudou o mundo para sempre. 

Fonte: Estratégia & Análise