Em seu novo livro, "Vivendo no fim dos tempos" (Boitempo Editorial), Slavoj Zizek defende que o capitalismo global está se aproximando rapidamente da sua crise final. Ele identifica os quatro cavaleiros deste apocalipse: a crise ecológica, as consequências da revolução biogenética, os desequilíbrios do próprio sistema (problemas de propriedade intelectual, a luta vindoura por matérias-primas, comida e água) e o crescimento explosivo de divisões e exclusões sociais. Zizek apresenta sua obra como "parte da luta contra aqueles que estão no poder em geral, contra sua autoridade, contra a ordem global e contra a mistificação ideológica que os sustenta".
Não deveria haver mais nenhuma dúvida: o capitalismo global está se aproximando rapidamente da sua crise final. Slavoj Žižek identifica neste livro os quatro cavaleiros deste apocalipse: a crise ecológica, as consequências da revolução biogenética, os desequilíbrios do próprio sistema (problemas de propriedade intelectual, a luta vindoura por matérias-primas, comida e água) e o crescimento explosivo de divisões e exclusões sociais. E pergunta: se o fim do capitalismo parece para muitos o fim do mundo, como é possível para a sociedade ocidental enfrentar o fim dos tempos?
Para explicar porque estaríamos tentando desesperadamente evitar essa verdade, mesmo que os sinais da “grande desordem sob o céu” sejam abundantes em todos os campos, Žižek recorre a um guia inesperado: o famoso esquema de cinco estágios da perda pessoal catastrófica (doença terminal, desemprego, morte de entes queridos, divórcio, vício em drogas) proposto pela psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross, cuja teoria enfatiza também que esses estágios não aparecem necessariamente nessa ordem nem são todos vividos pelos pacientes.
De acordo com Žižek, podemos distinguir os mesmos cinco padrões no modo como nossa consciência social trata o apocalipse vindouro. “A primeira reação é a negação ideológica de qualquer ‘desordem sob o céu’; a segunda aparece nas explosões de raiva contra as injustiças da nova ordem mundial; seguem-se tentativas de barganhar (‘Se mudarmos aqui e ali, a vida talvez possa continuar como antes...’); quando a barganha fracassa, instalam-se a depressão e o afastamento; finalmente, depois de passar pelo ponto zero, não vemos mais as coisas como ameaças, mas como uma oportunidade de recomeçar. Ou, como Mao Tsé-Tung coloca: ‘Há uma grande desordem sob o céu, a situação é excelente’”.
Os cinco capítulos se referem a essas cinco posturas.
O capítulo 1, “Negação”, analisa os modos predominantes de obscurecimento ideológico, desde os últimos campeões de bilheteria de Hollywood até o falso apocaliptismo (o obscurantismo da Nova Era, por exemplo).
O capítulo 2, “Raiva”, examina os violentos protestos contra o sistema global, em especial a ascensão do fundamentalismo religioso.
O capítulo 3, “Barganha”, trata da crítica da economia política, com um apelo à renovação desse ingrediente fundamental da teoria marxista.
O capítulo 4, “Depressão”, descreve o impacto do colapso vindouro, principalmente em seus aspectos menos conhecidos, como o surgimento de novas formas de patologia subjetiva.
E, por fim, o capítulo 5, “Aceitação”, distingue os sinais do surgimento da subjetividade emancipatória e procura os germes de uma cultura comunista em suas diversas formas, inclusive nas utopias literárias e outras.
Žižek é otimista quanto ao que pode surgir desse processo de emancipação e apresenta sua obra como parte da luta contra aqueles que estão no poder em geral, contra sua autoridade, contra a ordem global e contra a mistificação ideológica que os sustenta. Para ele, engajar-se nessa luta significa endossar a fórmula de Alain Badiou, para quem mais vale correr o risco e engajar-se num Evento-Verdade, mesmo que essa fidelidade termine em catástrofe, do que vegetar na sobrevivência hedonista-utilitária. Rejeita, assim, a ideologia liberal da vitimação, que leva a política a renunciar a todos os projetos positivos e buscar a opção menos pior.
Trecho do livro
“Essa virada na direção do entusiasmo emancipatório só acontece quando a verdade traumática não só é aceita de maneira distanciada, como também vivida por inteiro: ‘A verdade tem de ser vivida, e não ensinada. Prepara-te para a batalha!’. Como os famosos versos de Rilke (“Pois não há lugar que não te veja. Deves mudar tua vida”), esse trecho de O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, só pode parecer um estranho non sequitur: se a Coisa me olha de todos os lados, por que isso me obriga a mudar? Por que não uma experiência mística despersonalizada, em que ‘saio de mim’ e me identifico com o olhar do outro? E, do mesmo modo, se é preciso viver a verdade, por que isso envolve luta? Por que não uma experiência íntima de meditação?
Porque o estado ‘espontâneo’ da vida cotidiana é uma mentira vivida, de modo que é necessária uma luta contínua para escapar dessa mentira. O ponto de partida desse processo é nos apavorarmos com nós mesmos.
Quando analisou o atraso da Alemanha em sua obra de juventude Crítica da filosofia do direito de Hegel, Marx fez uma observação sobre o vínculo entre vergonha, terror e coragem, raramente notada, mas fundamental:
É preciso tornar a pressão efetiva ainda maior, acrescentando a ela a consciência da pressão, e tornar a ignomínia ainda mais ignominiosa, tornando-a pública. É preciso retratar cada esfera da sociedade alemã como a partie honteuse [parte vergonhosa] da sociedade alemã, forçar essas relações petrificadas a dançar, entoando a elas sua própria melodia! É preciso ensinar o povo a se aterrorizar diante de si mesmo, a fim de nele incutir coragem.”
Sobre o autor
Slavoj Žižek nasceu em 1949 na cidade de Liubliana, Eslovênia. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós‑modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é diretor internacional do Instituto de Humanidades da Universidade Birkbeck de Londres.
Vivendo no fim dos tempos é o seu sétimo livro traduzido pela Boitempo. Dele, a editora também publicou Bem‑vindo ao deserto do Real!, em 2003, Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917), em 2005, A visão em paralaxe, em 2008, Lacrimae Rerum, em 2009, Em defesa das causas perdidas e Primeiro como tragédia, depois como farsa, os dois últimos em 2011.
Ficha técnica
Título: Vivendo no fim dos tempos
Título original: Living in the end times
Autor: Slavoj Žižek
Tradução: Maria Beatriz de Medina
Orelha: Emir Sader
Páginas: 368
ISBN: 978-85-7559-212-0
Preço: R$ 52,00
Editora: Boitempo
Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20488
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
ASSISTA: Assange entrevista Slavoj Zizek e David Horowitz
O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, entrevista no segundo episódio da série “O mundo amanhã” o intelectual superstar Slavoj Zizek e David Horowitz, um dos líderes da direita americana. O encontro, entre mentes tão diferentes, resulta em uma entrevista no mínimo acalorada.
“Você é um apoiador da coisa mais próxima que temos do nazismo”, diz Horowitz. “Você apoia os palestinos. Eu não vejo como diferenciar os palestinos que querem matar os judeus dos nazistas”. Irritado, o esloveno dispara: “Desculpe, você já foi à Cisjordânia?” Em alguns momentos, Assange tem que segurar o exaltado Zizek, embora seu adversário esteja em outro continente. “Nós, totalitários das antigas, deveríamos, nos juntar e nos livrar deste liberal aqui!”, brinca Zizek para Horowitz, referindo-se a Assange.
O tom da conversa entre os três varia entre o antagônico e o bem humorado. Os três falam de personalidades que vão de Stalin a Obama, do conflito entre Israel e palestinos, do desejo da liberdade ao Estado de vigilância, passando, é claro, pelo trabalho o WikiLeaks, considerado “perigoso” por Horowitz. No final, Zizek conclui: “Isso foi uma loucura!”
O Radar Global publica as entrevistas semanalmente, sempre às quartas-feiras. A Agência Pública é responsável pela adaptação para o Brasil da série, realizada pelo WikiLeaks em parceria com o canal russo RT. Os episódios serão exibidos semanalmente com legendas em português. Assista a seguir.
Fonte: http://blogs.estadao.com.br/radar-global/assista/
Assange promove debate entre comunista e sionista
Durante a entrevista, o conservador David Horowitz comparou os palestinos aos nazistas
No segundo episódio da série “O Mundo Amanhã”, o fundador do Wikileaks, Julian Assange, entrevista Slavoj Žižek e David Horowitz. Žižek, que foi candidato à Presidência da Eslovênia nos anos 1990, é conhecido como um “intelectual superstar” e se define como leninista, apesar de ter um retrato de Stálin em sua casa. David Horowitz, por sua vez, é um expoente do pensamento conservador norte-americano – e um sionista sem o menor pudor. Atualmente, seu instituto faz campanhas contra influências islâmicas e de esquerda na mídia, na academia e na política.
O encontro, entre pensadores que defendem causas completamente diferente, foi acalorado. “Você é um apoiador da coisa mais próxima que temos do nazismo. Você apoia os palestinos. Eu não vejo como diferenciar os palestinos, que querem matar os judeus, dos nazistas”, diz Horowitz.
Irritado, o esloveno dispara: “Desculpe, você já foi à Cisjordânia?”. Em alguns momentos, Assange tem que segurar o exaltado Žižek, embora seu adversário esteja em outro continente.
O tom da conversa varia entre o antagônico e o bem humorado; os três falam de personalidades que vão de Stalin a Obama, do conflito entre Israel e Palestina, do desejo da liberdade ao Estado de vigilância,– passando, é claro, pelo trabalho do WikiLeaks, considerado “perigoso” por Horowitz. No final, Žižek conclui: “Isso foi uma loucura!”.
O projeto “O Mundo Amanhã” foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia. A publicação foi autorizada pela Agência Pública.
Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/24803/assange+promove+debate+entre+comunista+e+sionista.shtml
No segundo episódio da série “O Mundo Amanhã”, o fundador do Wikileaks, Julian Assange, entrevista Slavoj Žižek e David Horowitz. Žižek, que foi candidato à Presidência da Eslovênia nos anos 1990, é conhecido como um “intelectual superstar” e se define como leninista, apesar de ter um retrato de Stálin em sua casa. David Horowitz, por sua vez, é um expoente do pensamento conservador norte-americano – e um sionista sem o menor pudor. Atualmente, seu instituto faz campanhas contra influências islâmicas e de esquerda na mídia, na academia e na política.
O encontro, entre pensadores que defendem causas completamente diferente, foi acalorado. “Você é um apoiador da coisa mais próxima que temos do nazismo. Você apoia os palestinos. Eu não vejo como diferenciar os palestinos, que querem matar os judeus, dos nazistas”, diz Horowitz.
Irritado, o esloveno dispara: “Desculpe, você já foi à Cisjordânia?”. Em alguns momentos, Assange tem que segurar o exaltado Žižek, embora seu adversário esteja em outro continente.
O tom da conversa varia entre o antagônico e o bem humorado; os três falam de personalidades que vão de Stalin a Obama, do conflito entre Israel e Palestina, do desejo da liberdade ao Estado de vigilância,– passando, é claro, pelo trabalho do WikiLeaks, considerado “perigoso” por Horowitz. No final, Žižek conclui: “Isso foi uma loucura!”.
O projeto “O Mundo Amanhã” foi produzido pelo WikiLeaks em parceria com o canal RT, da Rússia. A publicação foi autorizada pela Agência Pública.
Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/24803/assange+promove+debate+entre+comunista+e+sionista.shtml
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Slavoj Zizek e a fé
Em novo livro, filósofo contraria Freud e analisa enraizamento da religião
O filósofo esloveno contraria o prognóstico freudiano segundo o qual a crença religiosa sucumbiria diante do progresso da razão tecnocientífica. Zizek defende que as crenças estão enraizadas e analisa este fenômeno em uma sociedade sem Deus.
O Amor Impiedoso (ou: Sobre a Crença)
Slavoj Zizek
Trad.: Lucas Mello Carvalho Ribeiro
Autêntica
210 págs. – R$ 37
Fonte: http://revistacult.uol.com.br/home/2012/10/slavoj-zizek-e-a-fe/
O filósofo esloveno contraria o prognóstico freudiano segundo o qual a crença religiosa sucumbiria diante do progresso da razão tecnocientífica. Zizek defende que as crenças estão enraizadas e analisa este fenômeno em uma sociedade sem Deus.
O Amor Impiedoso (ou: Sobre a Crença)
Slavoj Zizek
Trad.: Lucas Mello Carvalho Ribeiro
Autêntica
210 págs. – R$ 37
Fonte: http://revistacult.uol.com.br/home/2012/10/slavoj-zizek-e-a-fe/
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Tradução: Por que temer o espírito revolucionário árabe? (Slavoj Zizek)
Artigo escrito pelo filósofo Slavoj Zizek, para o Jornal The Guardian.
O que não pode senão saltar aos olhos nas revoltas na Tunísia e no Egito é a evidente ausência do fundamentalismo mulçumano. Na melhor tradição democrata secular, as pessoas simplesmente se revoltam contra um regime opressor, sua corrupção e pobreza, e exigir a liberdade e esperança econômica. A cínica sabedoria dos liberais ocidentais, secundo a qual, nos países árabes o genuíno sentido democrático se limita a uma estreita elite liberal enquanto a vasta maioria somente se mobiliza por meio do fundamentalismo religioso e o nacionalismo, se mostrou errada. A grande questão é o que vai acontecer depois? Quem irá emergir como o vencedor político?
Quando um novo governo provisório foi nomeado em Túnis, ele excluiu os islamistas e a esquerda radical. A reação dos presunçosos liberais foi “bom, eles são basicamente os mesmos; dois extremos totalitários” – mas as coisas são simples assim? O antagonismo a longo prazo não é precisamente entre os islamistas e a esquerda? Mesmo que estejam momentaneamente unidos contra o regime, uma vez que se aproximam da vitória, eles se dividem, eles se engajam em uma luta mortal, frequentemente mais cruel que compartilharam contra o inimigo comum.
Não presenciamos exatamente esta luta depois das últimas eleições no Irã? O que representavam as centenas de milhares de apoiadores de Mausavi era o sonho popular que sustentou a revolução de Khomeini: liberdade e justiça. Mesmo este sonho utópico, ele levou a uma explosão de criatividade politica e social de tirar o fôlego, experimentos organizativos e debates entre estudantes e pessoas do povo. Esta genuína abertura que desatou forças inauditas de transformação social, num momento em que tudo pareceu possível, foi depois gradualmente sufocada pela tomada de controle político realizada pela hierarquia islamista.
Até mesmo no caso de movimentos claramente fundamentalistas, deve-se cuidadosamente não descartar o componente social. O Talibã é regularmente apresentado como um grupo islâmico fundamentalista forçando sua regra com o terror. Entretanto, quando na primavera de 2009, eles tomaram o Vale do Swat no Paquistão, o New York Times relatava que eles arquitetaram uma “revolta de classe que explora profundas fissuras entre pequeno grupo de ricos proprietários e seus inquilinos sem-terra”. Se, ao “tirar vantagem” da desgraça dos camponeses, o Talibã está criando, nas palavras do New York Times, “alarme com os riscos que corre o Paquistão, que permanece majoritariamente feudal”, o que impediu, então, os democratas liberais no Paquistão e nos EUA de “tirar vantagem” dessa desgraça da mesma forma e tentar ajudar os camponeses sem-terra? Será que é porque as forças feudais no Paquistão são aliadas naturais da democracia liberal?
A inevitável conclusão a ser desenhada é que o surgimento do islamismo radical sempre o outro lado da moeda da desaparição da esquerda secular nos países muçulmanos. Quando o Afeganistão é retratado como o país ápice do fundamentalismo islâmico, quem ainda se lembra que a 40 anos atrás, ele era uma nação com uma forte tradição secular, incluindo um poderoso partido comunista que tomou o poder independente da União Soviética? Onde esta tradição secular foi?
É crucial ler os eventos atuais na Tunísia e no Egito (e Iêmen e…Talvez, esperançosamente, até na Arábia Saudita) contra este pano de fundo. Se a situação eventualmente estabilizar, de forma que o antigo regime sobreviva, mas com alguma cirurgia cosmética liberal, isso ira provocar uma insuperável reação fundamentalista. Uma chave para que o legado liberal sobreviva, é a necessidade de uma ajuda fraterna da esquerda radical. De volta ao Egito, a mais vergonhosa e oportunisticamente perigosa reação foi a do Tono Blair em resposta a CNN: a mudança é necessária, contudo deveria ser uma mudança estável. Mudança estável no Egito hoje pode significar somente um compromisso com as forças de Mubarak através de uma ligeira ampliação do circulo dominante. É por isso que falar de transição pacifica agora é uma obscenidade: ao esmagar a oposição, o próprio Mubarak tornou esta mudança impossível. Depois que Mubarak enviou o exercito contra os protestavam a escolha ficou clara: ou uma mudança cosmética no qual no qual se muda para ficar o mesmo, ou uma verdadeira ruptura.
Eis aqui então o momento da verdade: não é possível argumentar, como no caso da Argélia de uma década atrás, que a verdadeira eleição livre é igual a entregar o poder aos fundamentalistas islâmicos. Outra preocupação liberal é que não se tem uma organização politica para tomar o lugar quando Mubarak se for. É claro que não existe; Mubarak tomou o cuidado de reduzir toda a oposição ao nível de um ornamento marginal, de uma forma que o resultado é como um título de um famoso romance de Agatha Christie “And Then There Were None” (E Então não Sobrou Nenhum). O argumento em favor de Mubarak – é ele ou é o caos – é um argumento contra ele.
É de tirar o fôlego a hipocrisia dos liberais ocidentais: eles publicamente apoiaram a democracia, e agora, quando o povo se revolta contra os tiranos em nome da justiça e da liberdade seculares, e não em nome da religião, eles ficam profundamente preocupados. Por que a preocupação. Por que não a alegria que a liberdade esta ganhando uma chance? Hoje, mas do que nunca a máxima de Mao Tsé Tung é pertinente: “Há um grande caos sob os céus – a situação é excelente”
Então para onde deveria ir Mubarak? Aqui também a resposta é clara: para Haia. Se há um líder que merece estar lá, este líder é Mubarak.
Tradução: Rafael Leopoldo A S Ferreira
Original:Why fear the Arab revolutionary spirit?
Fonte: The Guardian (http://www.guardian.co.uk/ )
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
O amor impiedoso de Slavoj Žižek
Por Erick da Silva
O filósofo esloveno Slavoj Žižek em seu livro O amor impiedoso (ou: Sobre a crença), lançado no Brasil pela Autêntica Editora, analisa a crença em nossa sociedade. Publicado simultaneamente na Alemanha e na Inglaterra como Die gnadenlose Liebe (O amor impiedoso) e como On belief (Sobre a crença), respectivamente, é uma instigante abordagem sobre os mecanismos do credo.
Valendo-se de múltiplas referências (uma marca da obra de Žižek), o autor traça relações que compõe sua analise sobre os aspectos abordados. Žižek busca demonstrar como permanece enraizada o fenômeno da crença em nossa sociedade supostamente sem Deus, ainda que tal premissa ("sociedade sem Deus") já seja ela própria questionável e fragilmente amparada, o que se explicita facilmente. Ele aborda diversas formas de crença, desde a religião cristã e o judaísmo até o hedonismo místico new-age. A forma e os mecanismos que a estruturam e se conectam com o próprio capitalismo contemporâneo.
O amor impiedoso é a própria crença. A própria religiosidade que se manifesta em sacrifícios desprovidos de qualquer lógica aparente. Como a do próprio Deus do cristianismo, que exige o sacrifício de seu próprio filho (Jesus), para redimir a humanidade perante a si mesmo, Deus!
Contrariando o prognóstico freudiano de que a ilusão religiosa sucumbiria diante do progresso da razão tecno-científica, Žižek, valendo-se nesta empreitada do instrumental teórico fornecido por Lacan, mostra que a estrutura da crença é enraizada em nossas práticas sociais mais insuspeitas e aparentemente inocentes, desde a maneira como lidamos com nossos corpos no contexto da razão cibernética até o comprometimento de nossa forma de vida com o capital.
Como bem apontou Vladimir Safatle, "Žižek mostra sua capacidade de partir de premissas aparentemente não problemáticas, disposições arraigadas de conduta, assim como mitos intelectuais que não são vistos como tais, a fim de mostrar como a estrutura da crença é muito mais arraigada do que gostaríamos de imaginar. Dessa forma, essa ampliação da crença não funciona como um convite à simples defesa de sua racionalidade, mas à consciência clara dos desafios que um pensamento realmente crítico deve saber superar."
Neste sentido, o esforço de Žižek em atualizar o pensamento da esquerda, que nesta obra direciona-se principalmente no campo da psicanálise, buscando vincular a psicanálise e anticapitalismo, tentando superar simplificações freudo-marxistas, Žižek aproxima Marx, Lacan e todo um importante referencial crítico nesta empreitada.
Retomando Lenin, Žižek afirma: "A escolha verdadeiramente livre é aquela na qual eu não simplesmente escolho entre duas ou mais opções no interior de um conjunto prévio de coordenadas, mas escolho mudar esse próprio conjunto de coordenadas". Nesta direção que se aponta a urgência e a necessidade de uma reflexão crítica radical anticapitalista.
Quando apenas a heresia pode nos manter vivos | Artigo de Slavoj Žižek sobre a reeleição de Barack Obama
Por Slavoj Žižek.
Confira abaixo artigo inédito, traduzido por Rogério Bettoni, enviado pelo autor para a Boitempo publicar em seu Blog.
Como Barack Obama foi reeleito? Recentemente, Jean-Claude Milner propôs a ideia de “classe estabilizante”: não a antiga classe dominante, mas sim a classe ampla formada pelas pessoas que se comprometem totalmente com a estabilidade e a continuidade da ordem social, econômica e política vigente, a classe das pessoas que, até mesmo ao exigirem uma mudança, fazem-no para impor mudanças que tornarão o sistema mais eficaz e garantirão com isso que nada mude de fato. O segredo dos resultados eleitorais nos países desenvolvidos da atualidade é: quem consegue conquistar o apoio dessa classe? Longe de ser realmente visto como um transformador radical, Obama conquistou essa classe e por isso foi reeleito. A maioria que votou nele foi desencorajada pelas mudanças radicais defendidas pelos fundamentalistas religiosos e pelos fundamentalistas republicanos de mercado.
Mas, a longo prazo, isso basta? Em Notas para a definição de cultura, o célebre conservador inglês T. S. Eliot observou que há momentos em que a única escolha existente é entre a heresia e a descrença, quando a única maneira de manter viva uma religião é realizar uma cisão sectária de seu cadáver principal. Algo semelhante é necessário para romper com a crise debilitante das sociedades ocidentais – e aqui, obviamente, Obama deixa a desejar. Muitos radicais de esquerda que se decepcionaram com a gestão de Obama usaram contra ele justamente o fato de que o núcleo de sua tão anunciada “esperança” provou-se ser a esperança de que o sistema pode sobreviver com mudanças modestas e apropriadas.
Deveríamos então subestimar Obama? Será que de fato ele nada mais é que um Bush com rosto humano? Há sinais, no entanto, que apontam para além dessa visão pessimista. Por mais que a reforma da saúde proposta por Obama tenha se atolado em tantas transigências e resultado em quase nada, o debate que ela desencadeou foi da máxima importância.
Uma das grandiosas artes da política é insistir numa demanda particular que, apesar de completamente “realista”, viável e legítima, perturba o próprio cerne da ideologia hegemônica. Muitas vezes, uma demanda “moderada” e precisa, estrategicamente bem colocada, pode desencadear uma transformação global. A reforma da saúde proposta por Obama foi um passo experimental nessa direção – como explicar de outra maneira o pânico e a fúria que ela despertou no campo republicano? Obviamente, a reforma tocou em um nervo bem central do edifício ideológico dos Estados Unidos – mas que nervo? Seu nome é simplesmente: “liberdade de escolha”.
Por mais ridículas que sejam as infames diatribes comunistas contra a liberdade “formal” burguesa, elas lançam uma nova luz sobre a reforma da saúde de Obama. É verdade que a reforma efetivamente retira de grande parte da população a “liberdade” dúbia de se preocupar com quem irá cobrir suas doenças, de encontrar um caminho na intrincada rede de decisões financeiras e de outros tipos: ao serem capazes de dar como certa a assistência básica à saúde, de contar com ela como se conta com o fornecimento de água ou eletricidade sem se preocupar em escolher uma empresa de distribuição, as pessoas simplesmente terão mais tempo e energia para dedicar a vida a outras coisas. A lição que devemos tirar disso, portanto, é que a liberdade de escolha só funciona realmente se uma rede complexa de condições legais, educacionais, éticas, econômicas e outras existir como pano de fundo consistente e invisível do exercício de nossa liberdade. É por isso que, como antídoto para a ideologia da escolha, países como a Noruega deveriam ser considerados como modelos: embora os principais agentes respeitem um acordo social básico, embora projetos sociais amplos sejam realizados num espírito de solidariedade, o dinamismo e a produtividade social estão em níveis extraordinários, o que nega categoricamente a voz corrente de que uma sociedade assim deveria estar estagnanda.
Na Europa, o andar térreo dos prédios é contado como zero, de modo que o andar de cima seja o “primeiro”, enquanto nos Estados Unidos o “primeiro andar” fica no nível da rua. Essa diferença trivial indica uma profunda lacuna ideológica: os europeus sabem que, antes de começar a contar – antes de tomar decisões, de escolher –, tem de haver um solo de tradição, um nível zero dado sempre-já e que, como tal, não pode ser contado, enquanto os Estados Unidos, uma terra sem tradição histórica própria, carecem desse solo e supõe que se pode começar diretamente com a liberdade autolegislada – o passado é apagado (transposto para a Europa). Os Estados Unidos precisam aprender a levar em consideração a base da “liberdade de escolha”.
Obama é frequentemente acusado de dividir o povo norte-americano em vez de unir as pessoas para encontrar soluções bipartidárias amplas – mas e se isso for exatamente o que ele tem de bom? Em situações de crise profunda, é necessária uma divisão autêntica urgente – uma divisão entre os que querem se arrastar nos antigos parâmetros e os que têm consciência da mudança necessária. Tal divisão, e não as transigências oportunistas, é o único caminho para a verdadeira unidade. Quando perguntaram a Margaret Thatcher sobre seu maior êxito, ela respondeu sem pestanejar: “O New Labour”. E ela estava certa: seu triunfo foi o fato de suas políticas econômicas básicas terem sido adotadas até mesmo por seus inimigos políticos – o verdadeiro triunfo não é a vitória sobre o inimigo, ele ocorre quando o próprio inimigo começa a usar a sua linguagem, de modo que suas ideias formem a base de todo o campo. Hoje, no momento em que a hegemonia neoliberal está claramente se desintegrando, a única solução é repetir, na direção oposta, o gesto de Thatcher.
O “Yurodivy” é a versão ortodoxa russa dos Loucos por Cristo que fingem insanidade para transmitir uma mensagem tão perigosa para os detentores do poder que, se dada diretamente, provocaria uma reação brutal. Os tuítes de Donald Trump depois das eleições não se assemelham precisamente aos disparates dos Loucos por Cristo? “Vamos lutar desesperadamente e acabar com essa tremenda e lamentável injustiça! Essa eleição é uma fraude, uma farsa. Não somos uma democracia! Não podemos deixar isso acontecer. Devemos seguir em passeata até Washington e acabar com essa farsa. Precisamos de uma revolução nesse país!”. Embora Trump não seja de modo algum um radical de esquerda, é fácil perceber nos seus tuítes a dúvida sobre a “democracia formal burguesa” geralmente atribuída à Esquerda radical: liberdades superficiais mascaram a força das elites que impõem sua vontade pelo controle e pela manipulação da mídia. E há uma ponta de verdade nessa dúvida – nossa democracia precisa efetivamente ser reinventada. Cada abertura deveria ser explorada para nos aproximar desse objetivo, até mesmo as fendas minúsculas pelas quais irradiou alguma luz no primeiro mandato de Obama. Nossa tarefa durante o segundo mandato é exercer uma pressão constante para abrir essas fendas.
Fonte: http://boitempoeditorial.wordpress.com/2012/11/23/artigo-de-slavoj-zizek-sobre-a-reeleicao-de-barack-obama/