sexta-feira, 15 de março de 2013

Como dizer menos que nada?

Zizek_BettoniPor Rogério Bettoni.
Meu primeiro contato efetivo com a obra de Žižek foi em 2008, quando traduzi um livro de entrevistas com filósofos, organizado por Julian Baggini e Jeremy Stangroom. Das treze conversas compiladas no livro, a fala de Žižek foi a que mais me chamou a atenção. “Deve ser um cara interessante de se traduzir”, pensei, dada a descoberta de suas polêmicas e de sua ligação com a psicanálise – tema que sempre me interessou. Tornei-me leitor de seus livros; anos se passaram até que a Boitempo me chamou para a aventura de traduzir o verdadeiro tratado que é Menos que nada.
Imagine esta cena: um escritório montado em casa, rodeado de livros nas prateleiras; um computador ligado à internet; a solidão: três elementos fundamentais no trabalho da grande maioria dos tradutores que prestam serviço para editoras no país. O tradutor precisa estar só: para dar voz ao outro, trabalha consigo mesmo. E é por dar voz ao outro, dizem, que o tradutor tem de ser invisível, usar do seu poder de dizer na própria língua “quase a mesma coisa” que o outro disse em outra língua.
É a primeira vez que tenho a oportunidade de um contato mais próximo com um autor que traduzo. Foi quase um ano traduzindo Menos que nada, além de outros textos de Žižek – ou seja, presença diária das palavras do autor em minhas leituras, um contato que culminou em uma longa entrevista que pode ser lida aqui. Entendo quando tradutores dizem que estabelecem quase uma relação amorosa com os autores, um casamento ainda que platônico e unilateral. Acompanhar a vida de um autor, tratar a obra dele como um todo, perceber suas mudanças de opinião ao longo da vida, estabelecer com o texto a mesma dialética que o autor estabelece com as próprias ideias: é o que tento fazer quando traduzo Žižek.
Menos que nada não é um livro fácil; se a aparente disparidade de referências de Žižek antes já era tão variada, incluindo estudos culturais, música popular, arte urbana, psicanálise, filosofia grega, cinema, literatura etc. etc., neste livro ela é levada ao extremo: vemos um Žižek que usa Hegel e Marx para falar de Lacan e vice-versa, numa inter-relação que perpassa inclusive a física quântica. Não acredito em traduções que também não procurem dialogar com a mesma amplitude de referências, o que é difícil e nem sempre possível. Pois a tradução talvez seja a leitura mais autêntica possível de um texto, atenta e ao mesmo tempo sublime, que toca e dilacera as estruturas. “Mas seu trabalho é muito mais difícil e admirável que o meu: pois você só é visto quando comete um erro e te apontam o dedo; na tradução, é preciso ser invisível”, disse-me ele no lançamento do livro. Sei que é tarefa quase impossível ser invisível com um autor de tamanha complexidade – mas se é dela que depende uma tradução acertada, faço o possível para sê-lo: quanto menos visível, melhor. Menos que nada.
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Rogério Bettoni é graduado em Filosofia (UFSJ) e pós-graduado em Tradução (UFMG). Trabalha como tradutor profissional inglês-português nas áreas de Humanas, Artes e Literatura. Para a Boitempo, traduziu alguns títulos de István Mészáros e Slavoj Žižek. É editor do portal Umbigo das Coisas (http://umbigodascoisas.com) e colaborador do Blog da Boitempo.
Fonte:  http://blogdaboitempo.com.br/2013/03/15/como-dizer-menos-que-nada/


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