domingo, 10 de março de 2013

Em Porto Alegre, Slavoj Žižek expõe seu pessimismo e a falta de rumos da esquerda


Por Natália Otto/SUL21

O filósofo esloveno Slavoj Žižek sentou-se frente a uma plateia lotada na Câmara Municipal de Porto Alegre minutos após o anúncio da morte do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, na noite de terça-feira (5). A fala de um dos maiores teóricos da esquerda contemporânea não poderia começar diferente: “Chávez era um de nós, independente do que se queira dizer sobre ele”, afirmou, enquanto o burburinho da notícia percorria a plateia.

“Todo mundo gosta de simpatizar com favelas, de fazer caridade. Caridade é o que existe de mais fashion no novo capitalismo global. Faz as pessoas se sentirem bem e, ao mesmo tempo, despolitiza a situação”, prosseguiu Žižek. “Todos querem fazer caridade, mas nem todos querem incluir a favela na política. Chávez viu que não incluir todos os excluídos significa viver em uma permanente guerra civil. Por isso ele viverá para sempre, acho”, sentenciou o teórico.
Nascido em Liubliana, na Eslovênia, em 1949, Žižek é considerado um dos principais nomes da teoria crítica na atualidade. Com mais de sessenta obras publicadas, o filósofo veio ao Brasil para lançar seu último livro, Menos Que Nada: Hegel e a sombra do materialismo histórico, pela editora Boitempo, que promoveu o evento.
Em uma fala inquieta e bem humorada, com espaço para longas digressões e até piadas, Žižek falou durante quase duas horas sobre os rumos – ou a falta deles – dos movimentos de esquerda contemporâneos.

Chávez e o perigo do “oportunismo de princípios”

“Sempre tento ser um pessimista. Tento resistir a esse entusiasmo estilo ‘ah meu Deus, Chávez!’”, afirmou Žižek durante a breve entrevista coletiva que concedeu antes da palestra. Perguntado sobre os governos de esquerda da América Latina, e ainda sem saber da notícia da morte de Chávez, contou que, para ele, o problema principal é sempre de ordem econômica. “Nesse sentido, acho que talvez Chávez tenha sorte demais. Os amigos dele me dizem que ele não resolve problemas, ele pode se dar ao luxo de injetar dinheiro aonde queira”, explicou.
“Acho que o maior serviço que alguém pode prestar a todos esses movimentos de esquerda, como na América Latina, é, neste momento, sermos críticos e realistas. Para ser um utópico você precisa ser realista, senão você acaba se tornando um oportunista de princípios”, disse Žižek. E explicou: “É muito fácil não fazer nada politicamente, dizendo que não quero sujar minhas mãos, que sou fiel aos meus princípios, e ainda pensar ‘que maravilha, não traí meus ideais’. Mas essa é a tragédia da esquerda radical”, lamentou.
No momento em que o filósofo acabou sua fala sobre a América Latina, foi avisado de que Chávez havia falecido. “Bom, agora é a hora de sermos menos críticos”, reiterou. “A luta continua.”

Fonte: http://anacarolinapontolivre.wordpress.com/2013/03/07/em-porto-alegre-slavoj-zizek-por-natalia-ottosul21/

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