domingo, 20 de junho de 2010

Se hoje respondemos a um chamado direto para agir, essa ação não é desempenhada num espaço vazio – é um ato dentro das coordenadas ideológicas hegemônicas: aqueles que “realmente querem fazer algo para ajudar as pessoas” se envolvem (sem dúvida honrosamente) em iniciativas como Médicos sem Fronteiras, Greenpeace, campanhas feministas e anti-racistas, que são todas não apenas toleradas, mas até mesmo apoiadas pela mídia, ainda que pareçam violar o território econômico (por exemplo, denunciando e boicotando empresas que não respeitam as condições ecológicas ou que usam mão-de-obra infantil) – elas são toleradas e apoiadas desde que não se aproximem demais de um certo limite.
Esse tipo de atividade fornece o exemplo perfeito de interpassividade: de fazer coisas não  para conseguir algo, mas para impedir que algo realmente aconteça, que realmente mude. Toda essa frenética atividade humanitária, politicamente correta, etc., cabe na fórmula: “vamos continuar mudando algo todo o tempo para que, globalmente, as coisas fiquem iguais”. Se os estudos culturais via de regra criticam o capitalismo, eles o fazem da maneira codificada exemplificada pela paranóia liberal de Hollywood: o inimigo é “o sistema”, a organização “oculta”, a “conspiração” antidemocrática; e não simplesmente o capitalismo e os aparelhos de Estado. O problema dessa postura crítica não é apenas que substitui a análise social concreta por uma luta contra fantasias paranóicas abstratas, mas que – num gesto paranóico típico –, ela desnecessariamente duplica a realidade social, como se houvesse uma organização secreta por trás dos órgãos capitalistas e de Estado “visíveis”. O que devemos aceitar é que não há necessidade de uma “organização dentro de uma organização”: a “conspiração” já está na organização visível como tal, no sistema capitalista, na forma como o espaço político e os aparelhos de Estado agem.
 (Trecho retirado de "Às portas da revolução", 2005, p 177) 

sábado, 22 de maio de 2010

Zizek na revista Margem Esquerda, nº 14

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A crise ecológica manifesta uma contradição fundamental do capitalismo: entre o sistema produtivo e as condições de produção. Desde os primórdios da acumulação primitiva do capital, a conquista de mais e mais lucro se dá com a destruição de trabalhadores e da natureza. Contraditoriamente, o capitalismo destrói sua base, minando a própria capacidade de reprodução. A sorte das classes trabalhadoras e a do meio ambiente estão diretamente vinculadas. A compreensão crítica do vínculo entre luta de classes e ecologia se torna tema indispensável ao pensamento marxista.
Organizado por Carla Ferreira e Mathias Luce, o dossiê deste volume reúne textos dedicados ao meio ambiente, onde, segundo Luce, “a crise climática é apenas a ponta do iceberg da ativação dos limites do capital, quando o imperialismo se torna mais agressivo e fecha o círculo vicioso que coloca em xeque o futuro da humanidade”. Os sociólogos norte-americanos John Bellamy Foster e Brett Clark discorrem sobre as contribuições de Marx e Mészáros à crítica da cisão no metabolismo ecológico e no sociometabolismo provocada pelo funcionamento do capital. O texto do geógrafo Carlos Walter Porto-Gonçalves critica o apetite do capital, que, por meio de patentes industriais e biopirataria, privatiza o conhecimento indígena. Michael Löwy reflete sobre a insustentabilidade do modo de produção e consumo dos países capitalistas avançados. Segundo Mathias Luce, o texto de Löwy ressalta que “a consigna ‘mudar o sistema, não o clima’ e a recente Conferência Mundial dos Povos sobre as Mudanças Climáticas e pelos Direitos da Madre Tierra, em Cochabamba, evidenciam a radicalização das lutas ecológicas no movimento altermundialista”. E o urbanista norte-americano Mike Davis revela como o descontrole das autoridades sanitárias, sob os interesses da agroindústria, favoreceu mutações genéticas do vírus da gripe H1N1. As contradições do capitalismo tomam nova forma a partir da Revolução Informacional. Em entrevista concedida a Henrique Amorim, em Paris, o sociólogo francês Jean Lojkine expõe os impactos do capitalismo atual no mundo do trabalho, em especial nas identidades classistas.
Abrindo a seção de artigos, Slavoj Žižek procura responder à questão levantada por Walter Benjamin, a respeito de ser ou não possível uma resolução não violenta de conflitos. Para falar sobre o tema sempre presente da “questão judaica”, os filósofos Zoltán Tarr e Judith Marcus descrevem a relação de Lukács com essa temática. Afrânio Mendes Catani e Renato Gilioli analisam as memórias de presas políticas durante a ditadura na Argentina, de 1974 a 1983. Luiz Renato Martins trata da perda de um sentido histórico dos atos culturais, que, segundo ele, é sintoma da passagem de um ideal de formação do Brasil para uma prática de desmanche. Por fim, o historiador inglês Perry Anderson retoma a noção de hegemonia de Giovanni Arrighi para entender as dinâmicas das relações internacionais de poder e discutir as perspectivas da crise de hegemonia norte-americana.
Leia aqui a apresentação completa e o Sumário da Margem Esquerda n. 14..


Ficha técnica
Título: Margem Esquerda n. 14
Autor: Vários autores
Páginas: 160
Ano de publicação: 2010
ISBN: 1678-7684
Preço: R$ 28,00.

Fonte: Assessoria de Imprensa Boitempo Editorial

segunda-feira, 22 de março de 2010

Slavoj Zizek e o capitalismo autoritário chinês


Cláudio César Dutra de Souza
Jornal Zero Hora, Caderno Cultura p. 6 – 13 de fevereiro de 2010.


O novo livro do filósofo e crítico cultural esloveno Slavoj Zizek, First as tragedy, then as farce (Verso, 2009, 157 paginas), traz um conjunto de idéias que valem uma reflexão. Entre elas, a mais polêmica é a que formula a hipótese de que estaríamos assistindo à consolidação de uma nova etapa na evolução do sistema capitalista, na qual os laços entre democracia e livre mercado (mesmo sujeitos a lapsos ditatoriais) seriam definitivamente rompidos e a face autoritária do capitalismo abertamente revelada. 

De acordo com Slavoj Zizec, esse capitalismo autoritário, que encontra na China o seu maior expoente, seria herdeiro da mão de ferro de antigos governos asiáticos totalitários, fossem eles comunistas ou monárquicos, os quais, a partir da emergência dos chamados “Tigres Asiáticos” (Hong Kong, Singapura, Coréia do Sul e Taiwian), na década de 1990, se mesclaram com o modo de produção que se consagrou vitorioso no Ocidente no último século. 

A China parece ter aprendido a lição dos grandes felinos. Tomemos Singapura como exemplo e veremos que a expressão “capitalismo de valores asiáticos” foi cunhada pelo líder que praticamente reinventou aquele país, Lee Quan Yew. Antes de colocar em prática as reformas que frutificam até os dias de hoje, Deng Xiaoping elogiou o crescimento de Singapura, afirmando que esse seria um modelo para a China seguir naqueles tempos em que todos os partidos comunistas do mundo entravam em um processo de luto pela ideologia perdida com o fim da União Soviética. A partir do modelo de Singapura, a China encontrou a sua versão do capitalismo autoritário, uma que não exigia grandes mudanças políticas, com Estados altamente centralizados e ditatoriais, que controlam a liberdade de expressão e que utilizam de forma quase que sumária a pena capital.

De acordo com Slavoj Zizec, seriam ingênuos aqueles que acham que o legado da Revolução Cultural Chinesa poderia promover minimamente uma contenção dos excessos do capitalismo. A suprema ironia é que, segundo esse autor, foi justamente o Maoísmo que criou as condições para a explosão capitalista da moderna china. A revolução cultural, que objetivou o desmoronamento de tradições e introduziu o comunismo naquele país, paradoxalmente também criou as condições ideológicas para o seu atual desenvolvimento capitalista, reforçando o que Marx afirmava em relação ao colonialismo europeu, no sentido de que esse, minando as bases agrárias e tradicionais dos povos colonizados, instituiria a luta de classes e, subseqüentemente, o socialismo.

Apesar de polêmica, essa afirmação é coerente com o pensamento de Marx quando esse fez o elogio da dominação Britânica na índia, escrevendo que a Inglaterra deveria cumprir na Índia uma dupla missão: uma destrutiva, outra regeneradora, ou seja, a aniquilação da velha sociedade asiática e o estabelecimento dos fundamentos da sociedade ocidental na Ásia (The British Rule in India, 1853). Para Marx, as idílicas aldeias que existiam antes da dominação britânica eram também vítimas do despotismo oriental, ignorância e alienação religiosa e a situação colonial, por pior que fosse, ajudaria esses povos em sua evolução.

Slavoj Zizec lembra igualmente que, no 18 brumário de Luis Bonaparte (1851-52), Karl Marx cita Hegel quando este afirma que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E acrescenta a sua famosa frase: “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Herbert Marcuse completa que a repetição de um evento como farsa pode ser ainda mais terrível do que a tragédia original. Dentro dessa lógica, não podemos entender a atual situação chinesa como uma farsa das etapas iniciais e trágicas da revolução industrial, mas sim como a instauradora de uma nova ordem que se alastra para outros países, sendo a Rússia de Putin e a Itália de Berslusconi seus exemplos mais marcantes. 

Posto isso, não é de se espantar que o país se torne um ícone tanto para os neoliberais como para alguns membros do campo das esquerdas. Em relação a esses últimos, a associação freqüente da China como uma possível alternativa ao modelo hegemônico americano supõe imaginariamente algo que definitivamente ela não é, a não ser que seja para torná-lo ainda pior. Francis Fukuyama nos fala de um suposto “consenso de Pequim”, o qual substituiria o conhecido “consenso de Washington”, lançando novas regras e diretrizes para o capitalismo global, no qual seria possível fazer negócios e ganhar dinheiro sem dar importância à democracia e aos direitos humanos (Estadão, 21 de agosto de 2008). Fukuyama não acredita que esse modelo capitalista autoritário irá substituir o modelo democrático liberal devido a sua eficiência estar restrita a uma estrutura asiática que pressupõem um conjunto de valores culturais específicos. Não obstante, Fukuyama concorda com o editor do semanário internacional Newsweek, Fareed Zakaria, quando este identifica a emergência do modelo Chinês como representativo do mundo que ele chamou de “pós-americano”.

Alguns farão a ressalva de que as democracias liberais seriam efetivamente apenas uma máscara suave que outorgaria ao cidadão uma liberdade imaginária. Slavoj Zizec não se furta a criticar de forma contundente nossas supostas “liberdades de escolha”, argumentando que essas existem apenas para legitimar aquilo que o sistema já previamente escolheu, tais como a alternativa entre a Pepsi ou a Coca Cola ou entre um candidato a presidência e outro. Entretanto, existe uma diferença marcante com relação à China: o prescindir de disfarces e o escancarar do autoritarismo como um dispositivo legal e estatal. A necessidade de reconhecer (e discutir) a magnitude de tal diferenciação reside no poder de atração ideológica (com desdobramentos políticos, econômicos e militares) que esse país possui, fruto de seu espetacular desenvolvimento econômico, o que pode representar um perigoso precedente à refração de conquistas sociais duramente conquistadas ao longo do século XX.

terça-feira, 2 de março de 2010

Livro: Virtude e Terror


Robespierre, o temível líder dos jacobinos na Revolução Francesa, proferiu discursos implacáveis, que defendem a punição dos inimigos, atacam a pena de morte, o julgamento do rei e a marginalização de atores e negros. Neste livro estão reunidos alguns de seus principais textos, que chamam atenção pela atualidade das questões abordadas. 
A série Revoluções apresenta textos clássicos escritos por personagens que estiveram no centro dos acontecimentos durante um período de insurreição, apresentados por um conhecido escritor radical contemporâneo. 
Para este livro o filósofo e sociólogo Slavoj Zizek escreveu uma apresentação surpreendente, que leva o leitor a refletir como este pensador continua a inspirar a produção de novas idéias. Zizek nasceu na capital da Eslovênia. Tornou-se internacionalmente conhecido pela radicalidade de suas análises sobre a cultura e a política no mundo contemporâneo.


Editora: Jorge Zahar 
ISBN: 9788537800744 
Ano: 2008 
Edição: 1 
Número de páginas: 236 
Acabamento: Brochura 
Formato: Médio 
Complemento da Edição: Nenhum 


Você pode procurar este livro em sebos na internet: Estante Virtual

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Video: Slavoj Zizek - "Living in the end times"



Partes: 6
Ano: 2009
Audio: Vários
Legendas: Sim (em outra lingua, alguém conhece?)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Novos livros de Zizek previstos para serem lançados no Brasil

Segundo o Blog da Boitempo Editorial, estão previstos para 2010, o lançamento de mais dois títulos de Zizek em português: "Did somebody Say Totalitarianism?" (London, Verso: 2001) e "In defense of lost causes" (New York, Verso: 2007). 







Os títulos em português permanecem muito semelhantes: "Alguém disse totalitarismo?" e "Em defesa das causas perdidas". Ainda não foi divulgada uma data prevista para o lançamento. A Boitempo Editorial publicou quatro livros de Zizek no Brasil: "Bem-vindo ao deserto do Real!" (2003), "Às portas da revolução" (2005), "A visão em paralaxe" (2008) e "Lacrimae Rerum" (2009).

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O Pensamento de Zizek


POR LUIZ ANTÔNIO ARAUJO
Editor de Cultura
Entre todos os sistemas de pensamento que procuraram explorar os múltiplos pontos de contato entre a moderna filosofia alemã e a psicanálise, nenhum foi mais ousado do que o do francêsJacques Lacan e seus discípulos. Os fatos da vida e o percurso intelectual do analista da Rue de Lille fizeram com que seu interesse pela obra de Sigmund Freud corresse paralelamente a uma curiosidade filosófica incomum, que o levou a conviver com especialistas como Alexandre Kojève e Alexandre Koyré. Lacan intuiu que os legados de Hegel e de Freud se voltavam para questões chave do conhecimento, como os papéis do sujeito e da consciência. Nisso não fez mais do que se conduzir como um homem de seu tempo. Amigo de Lacan, o antropólogoClaude Lévi-Strauss diria em sua mais famosa entrevista que, da filosofia alemã, retivera a noção de consciência humana tendia a “mentir para si mesma”. Trata-se de uma concepção que remonta a Hegel, passa por Marx e ecoa no pensamento pós-moderno, e à qual Lacandificilmente recusaria apoio.
O século 20 preparou numerosas armadilhas para o pensamento de Hegel e seus herdeiros e tampouco foi clemente com as conclusões de Freud. É significativo que a Europa Central, campo de provas da psicanálise e de distintas correntes do marxismo - do austromarxismo a Tito -, tenha explodido no início dos anos 1990 na guerra civil iugoslava. Mas foi justamente dessa região que emergiu um pensador dedicado a revisitar o pensamento de Hegel e de Freud pelo viés lacaniano. O empreendimento de Slavoj Zizek, psicanalista formado em Paris com o genro de Lacan e professor visitante de universidades dos dois lados do Atlântico, não se volta preferencialmente para a ação política ou para a prática clínica. É na crítica cultural que Zizek se exercita com maestria, por meio de um diálogo vigoroso com a literatura, o teatro, o cinema e a comunicação de massa. Como outros intelectuais do outro lado da antiga Cortina de Ferro, ele não se furta a intervir nos grandes debates públicos, às vezes como protagonista - chegou a ser candidato à presidência da Eslovênia logo depois que o país se separou da Iugoslávia. E volta sua erudição para a análise de fenômenos tão díspares como o 11 de Setembro, os reflexos da queda do Muro de Berlim, a emergência da China como potência mundial e os reality shows da TV.
Zizek já esteve no Brasil, e entre seus livros publicados em português estão Bem-Vindo ao Deserto do Real (Boitempo, 2003), As Portas da Revolução (Boitempo, 2005) e Mao - Sobre a Prática e a Contradição (Jorge Zahar, 2008).