segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Slavoj Zizek - Reapropriações: a lição de Mulá Omar.

Cap. 2 de Bem vindo ao deserto do real

Download: http://revolucoes.org.br/v1/sites/default/files/bem_vindo_ao_deserto_do_real_cap2.pdf

Fonte: http://revolucoes.org.br/v1/seminario/slavoj-zizek

domingo, 31 de julho de 2011

Slavoj Zizek - Bem vindo ao deserto do real - Posfácio

Posfácio do livro.

Download: http://revolucoes.org.br/v1/sites/default/files/bem_vindo_ao_deserto_do_real_posfacio.pdf

Fonte: http://revolucoes.org.br/v1/seminario/slavoj-zizek

sábado, 30 de julho de 2011

Jorge Barcellos - "Desfruta ou te devoro. A nova onda do comunismo"

 Em duas obras recém-lançadas no Brasil, o esloveno Slavoj Zizek imagina alternativas para um mundo que vê marchar em direção a um capitalismo autoritário no modelo chinês. 

O artigo é de Jorge Barcellos, doutorando em educação pela UFRGS, coordenador do Memorial da Câmara Municipal de Porto Alegre, publicado no jornal Zero Hora, 09-07-2011. 

Eis o artigo. 

O que torna profundamente atual o pensamento do esloveno Slavoj Zizek, de quem a editora Boitempo acaba de lançar Em Defesa das Causas Perdidas e Primeiro como Tragédia, depois como Farsa, é seu trabalho sobre a ideologia. Não se trata da retomada de O Mapa da Ideologia, obra sua já conhecida dos brasileiros, mas do aprofundamento de aspectos de O Sublime Objeto da Ideologia (Siglo XXI, 2005, inédito no Brasil). Nesse livro de 2005, Zizek integrou de forma original as percepções psicanalíticas da fantasia à crítica marxista da ideologia. Isto lhe lhe permitiu, pela primeira vez, propor uma teoria de como funciona a ideologia no plano subjetivo: “Não existe a crença comum, o que existe é a crença em que os outros creem”. 

Zizek reconstrói os processos que fazem homens, em determinadas circunstâncias, justificarem e darem um ar de verdade a uma mentira, numa espécie de construção coletiva . O “vamos fingir que as regras funcionam” oculta, entretanto, o fato de que as instituições no capitalismo contemporâneo estão falidas e ninguém de fato acredita nelas. Agimos como na fantasia de Papai Noel: nem os adultos nem as crianças acreditam mais nele. Pior: agimos assim com nossas instituições, inclusive com a democracia. A subjetividade também está sob tremenda pressão da ideologia: cuidado, o capitalismo quer dar um significado a sua vida, diz Zizek. Ele toma como exemplo os anos que passamos consumindo publicidade, uma das melhores formas de se pensar o que acontece com nossa subjetividade. Nos anos 1960, a propaganda automobilista vendia as qualidades de um carro; nos anos 1970, o status que ele oferece ao consumidor para finalmente, hoje, ser a promessa de libertação da sociedade opressora. 

Para Zizek, o capitalismo contemporâneo é profundamente ideológico: “A política desse capitalismo é a despolitização para que não haja mais uma ideologia clara”. Na sociedade de consumo (um conceito caro a Baudrillard), a ideologia vendida é a ideologia da diversão como na expressão latina Carpe diem (“Aproveitem o dia”). Nada mais comprovador do conceito de Lacan – apropriado por Zizek – de gozo excedente, um gozo que nos suborna para mascarar os nossos problemas. A solução, para Zizek, é o retorno à noção de economia política tal como proposta por Marx: politizar a economia, e é nesse sentido que Zizek mais se aproxima de outro teórico do marxismo, Robert Kurz. A ideologia do capitalismo contemporâneo, sustenta Zizek, quer que acreditemos que a economia não tem nada haver com a política: ela quer uma sociedade apolítica, e para isso constrói a ideia de que é besteira discutir política. Nisto reside a radicalidade de Zizek: ele quer que a democracia se garanta sem as influências das pressões de mercado. 

Yannis Stavrakakis, em A Esquerda Lacaniana – Psicanálise, Teoria, Política (Fondo de Cultura Econômica, 2010, inédito no Brasil), deu-se conta que o pensamento de Zizek consolidou-se ao longo dos últimos 15 anos, período em que a psicanálise e a teoria lacaniana passaram a ser recursos importantes na reorientação da teoria política contemporânea. Essa posição, para qual boa parte dos cientistas políticos torce o nariz, origina-se no próprio pensamento de Lacan, que não foi apolítico – ao contrário, fez críticas ao American way of life, ao capitalismo americano e à sociedade de consumo, o que o levou a associar sua noção de mais-gozo à noção de mais-valia de Marx. Nesse caminho estão Zizek, Cornelius Castoriadis, Alain Badiou e especialmente Ernesto Laclau, para quem “a teoria lacaniana aponta ferramentas decisivas para a formulação de uma teoria da hegemonia”, daí a definição de seu horizonte teórico-politico em termos de “esquerda lacaniana”, nítido campo de intervenções políticas e teóricas a partir da psicanálise – mas não somente dela – que parte para a crítica da hegemonia capitalista contemporânea. 

Em Primeiro como Tragédia, depois como Farsa, lançado simultaneamente pela Verso (Londres) e Flamarion (Paris) em 2009, Zizek pergunta se estamos preparados para a história que se impõe sobre nossas cabeças desde os ataques de 11 de Setembro. Ele mostra as manobras por detrás das ideologias levantadas pela atual crise (2008) e que levou bilhões de dólares para os bancos. Para Zizek, o que é profundamente ideológico é tratar as crises do capitalismo como algo estranho ao próprio capitalismo, ideia que deseja vender a imagem de um mercado capitalista regulado de outro modo. Ao contrário, ele nos mostra cada vez mais o capitalismo sobrevivendo abaixo de terapias de choque, num mercado que exige violência extramercado para seu funcionamento. 

Já na obra Em Defesa das Causas Perdidas, Zizek vai contra o pensamento hegemônico que vê a democracia liberal, as vezes dita pós-moderna, como o melhor dos mundos frente ao passado das lutas comunistas. Isso não quer dizer que as “causas perdidas” que defende estejam abrigadas pelo teto do Fórum Social Mundial: para Zizek, seu lema “Um outro mundo é possível” mostra que seus protagonistas ainda relacionam-se demais com a estrutura já posta pelo capitalismo. Para fazer seu caminho, ele faz a opção por retornar ao marxismo a sua maneira, o que tem o peculiar efeito de chamar a atenção mundial sobre sua obra: não há dúvida, o que Zizek faz é tornar sedutor o marxismo para as novas gerações. Para isso articula Lacan, Hegel e Marx com cinema, música, cultura popular e a crítica dos objetos de consumo. Em Defesa das Causas Perdidas, entretanto, padece do problema comum aos grandes pensadores contemporâneos: como produzem demais, escrevem demais, torna-se frequente encontrar traços de obras anteriores nas seguintes. Não há como deixar de ver no capítulo 2, Lições do Passado, o eco de suas obras anteriores sobre Robespierre e Mao, ou dos estudos anteriores que fez sobre o stalinismo publicados em espanhol. Há, entretanto, reflexões sobre o pensamento de Heidegger extremamente originais e que não haviam aparecido anteriormente, contudo. E é claro, Zizek sempre é um grande contador de causos que sintetizam brilhantemente suas ideias. Em um determinado momento de sua obra, ele cita a ficha de um hotel americano: “Prezado cliente: para garantir que você vai desfrutar sua estadia conosco, o fumo está totalmente proibido neste hotel. Qualquer violação deste regulamento resultará numa multa de US$ 200”. Assim é o capitalismo, diz Zizek: estamos condenados a ser castigados se recursarmos a desfrutá-lo plenamente. Zizek quer nos mostrar o cinismo do capitalismo contemporâneo em sua caminhada em direção a um capitalismo autoritário, contrário ao direitos humanos, como anuncia o caso chinês. E o grande perigo é que ele pode estar certo.

Slavoj Zizek - O materialismo dialético bate à porta.

Introdução de Visão em paralaxe.

Download: http://revolucoes.org.br/v1/sites/default/files/visao_em_paralaxe_-_introducao.pdf

Fonte: http://revolucoes.org.br/v1/seminario/slavoj-zizek

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Slavoj Zizek - Hollywood hoje: notícias de um FRONT ideológico.

 Prefácio à edição brasileira de Lacrimae rerum.

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Fonte: http://revolucoes.org.br/v1/seminario/slavoj-zizek

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Oscar Pilagallo - "O sistema está aí, e a história continua"

Para Slavoj Zizek, quatro “antagonismos” põem em xeque a economia de mercado 

Seria muito fácil descartar como ultrapassado ou extemporâneo um livro que, mais de duas décadas depois da queda do Muro de Berlim, considera que ainda há no horizonte uma hipótese comunista. 

Antes de deixar o pequeno volume de lado, no entanto, o leitor interessado nos desafios do capitalismo deveria prestar atenção em duas ou três observações de Slavoj Zizek sobre algumas fragilidades do sistema hoje hegemônico. 

O livro se insurge contra a tese do “fim da história” de Francis Fukuyama, segundo a qual, com a ausência da polarização ideológica desde o desmoronamento do comunismo, o capitalismo se impôs de tal maneira que não pode mais ser confrontado, restando apenas a possibilidade de reformas para aprimorá-lo. 

Em seu livro, Zizek sustenta que a história continua viva. O título é tirado da resposta de Marx a Hegel em O 18 de brumário de Luís Bonaparte. Na atualização de Zizek, a tragédia foram os ataques de 11 de setembro de 2001. A farsa seria a crise financeira mundial, a partir de 2008. Os dois eventos, diz o filósofo esloveno, desmontam a concepção de Fukuyama. 

Ao contrário de muitos analistas de esquerda, no entanto, Zizek não cai na esparrela de ficar aguardando a crise terminal do capitalismo a cada solavanco das economias mais ricas. Pensador sofisticado, ele identifica fissuras mais estruturais — daí a relevância de seu livro, independentemente da ideologia do leitor: onde o comunista lerá oportunidades, outros poderão ler alertas. 

O autor identifica quatro “antagonismos” que ameaçam o sistema capitalista global: o perigo da catástrofe ecológica, a inadequação da noção de propriedade privada em relação à propriedade intelectual, as implicações socioéticas da biogenética e as novas formas de apartheid, como muros para conter a imigração e favelas. 

Esses são fatores estruturais. Mas Zizek se debruça também sobre a conjuntura atual. Sobre a bilionária operação de salvamento do sistema bancário, nota a “superposição inesperada” da visão da esquerda com a dos conservadores. De fato, enquanto o documentarista iconoclasta Michael Moore falou em “roubo do século”, os republicanos falaram em “socialismo de Estado”. 

Para o filósofo, não se trata de nenhuma das duas coisas. É claro que não é socialismo — “se for, é de um tipo muito peculiar”, para ajudar os ricos, e não os pobres. Mas também não é roubo. “O slogan populista ‘salvem o povo das ruas, não Wall Street!’ é totalmente enganoso, uma forma de ideologia em seu grau mais puro, porque passa por cima do fato de que, no capitalismo, o que sustenta o povo das ruas é Wall Street! Sem ela, o povo das ruas se afogará no pânico e na inflação”. E conclui: “O paradoxo do capitalismo é que não se pode jogar fora a água suja da especulação financeira e preservar o bebê saudável da economia real”. 

É por isso que Zizek afirma que os democratas que apoiaram o plano de salvamento “não foram incoerentes com sua orientação esquerdista”. Embora não poupe elogios a Barack Obama, o filósofo admite que a atitude do presidente americano não é favorável à perspectiva comunista. “A verdadeira tragédia de Obama é que ele tem toda a probabilidade de vir a ser o derradeiro salvador do capitalismo e, como tal, um dos grandes presidentes conservadores americanos.” 

Como foi possível a Obama capitanear tal processo? Para Zizek, há coisas progressistas que só um conservador consegue fazer. Foi, por exemplo, o republicano Nixon que restabeleceu relações com a China. Da mesma maneira, há coisas conservadoras que só um progressista é capaz de fazer. Foram as credenciais progressistas de Obama, diz Zizek, “que lhe permitiram impor os ‘reajustes estruturais’ necessários para estabilizar o sistema”. 

O autor considera ingênua a esperança de que a crise “abra necessariamente espaço para a esquerda radical”. Seu primeiro efeito, ao gerar o medo, seria, ao contrário, a reafirmação “das premissas básicas da ideologia dominante”. Daí a possibilidade de a principal vítima não ser o capitalismo, “mas a própria esquerda, na medida em que sua incapacidade de apresentar uma alternativa global tornou-se novamente visível a todos”. 

Se o edifício do capitalismo suporta bem o abalo da crise financeira, haveria algo que pudesse comprometê-lo? 

Talvez o distanciamento entre capitalismo e democracia. Ao longo de décadas, e com raras exceções, o sistema econômico e o regime político foram inextricáveis. A China, no entanto, tem praticado o capitalismo num ambiente autoritário, ou, como diz Zizek, “com valores asiáticos”. É um exemplo de que “o potencial autêntico da democracia [...] está perdendo terreno hoje para a ascensão do capitalismo autoritário, cujos tentáculos vêm se aproximando cada vez mais do Ocidente”. 

Ele lembra outros dois exemplos: “O capitalismo de Putin, com seus ‘valores russos’ (demonstração violenta de poder) [e] o capitalismo de Berlusconi, com seus ‘valores italianos’ (exibicionismo cômico)”. 

Tais realidades contrastam com os tempos em que o capitalismo absorvia mudanças sociais, incorporando as ameaças ao sistema como novos valores. Foi assim depois de Maio de 68, quando “o novo espírito do capitalismo recuperou triunfantemente a retórica igualitária e anti-hierárquica [...], apresentando-se como uma revolta libertária bem-sucedida contra as organizações sociais repressoras”. 

Zizek não é, evidentemente, um democrata. Para ele, eleições “tendem a refletir a doxa predominante determinada pela ideologia hegemônica”. Mas não despreza a liberdade formal burguesa “que pôs em marcha o processo de demandas e práticas políticas ‘materiais’, do sindicalismo ao feminismo”. Reduzir isso a mera ilusão “seria cair na velha hipocrisia stalinista”, que zombava da ineficácia das liberdades burguesas, mas as proibia. 

Sim, Zizek é também um crítico do comunismo. Não aceita, por exemplo, o argumento de que Stalin teria traído a revolução. Se o comunismo não deu certo, é porque havia erros no próprio marxismo, e não apenas em sua aplicação. Embora conceba o comunismo como uma “ideia eterna”, rejeita voltar ao ponto em que a experiência foi interrompida. Para ele, é preciso zerar. A propósito, cita Samuel Beckett várias vezes: “Tente de novo. Erre de novo. Erre melhor”. 

Saudado como uma novidade no campo teórico da esquerda, o autor sabe jogar com os elementos midiáticos que lhe projetam uma imagem de filósofo pop. Carismático e intenso, Zizek cita filmes de Hollywood com a mesma naturalidade com que usa o jargão marxista. Pode ser debatido numa arena política ou citado num jantar inteligente — e nesse caso será útil saber como se pronuncia seu sobrenome: é jijék. 

Primeiro como Tragédia, Depois como Farsa é um livro que se lê no ritmo acelerado em que parece ter sido escrito. O estilo agitado é também caudaloso, mas o autor consegue evitar digressões, voltando sempre em tempo ao argumento principal: as mazelas do capitalismo. 

Aliás, trata-se de algo em comum com Marx: Zizek tem mais a falar sobre o sistema econômico em que vive do que aquele em que sonha viver. 

***

Oscar Pilagallo é jornalista, autor de A Aventura do Dinheiro (Publifolha).

Paulo Lima - "Slavoj Zizek: o filósofo pop"

Reprodução do texto originalmente publicado no Balaio de Notícias 

O burburinho no foyer do Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, só crescia à medida que se aproximava o momento de abertura do auditório, marcado para as 14 horas. Em cartaz, a segunda rodada de palestras do seminário Revoluções, uma política do sensível. No programa, filósofos de longínquos quadrantes gastariam o verbo para discorrer sobre os grandes desafios da contemporaneidade. O título do seminário não deixava margem a dúvidas. Estaria em curso um desfile de ideias, por assim dizer, de viés esquerdista. Por suposto, esperava-se a presença de grupos organizados de movimentos sociais e suas indefectíveis bandeiras, a proferir palavras de ordem. Ledo e rotundo engano. A impressão é que toda a jeneusse dorée de Sampa estava por lá, moçoilas e rapagões a trocar impressões filosóficas numa ágora improvisada no espaço e no tempo. 

Havia uma explicação para tamanho frisson. O convidado do dia, responsável pelo grand finale do seminário, era ninguém menos que o filósofo esloveno Slavoj Zizek. Com suas performances pontuadas por gestos estabanados e declarações polêmicas, Zizek conseguiu atrair os holofotes da mídia como um insigne porta-voz das causas perdidas, resgatando da mofa e do oblívio termos como comunismo e revolução. 

Num canto do foyer, um estande improvisado punha à venda os livros do filósofo lançados no Brasil pela Boitempo Editorial. Pelo programa do dia, Zizek daria uma sessão de autógrafos após a palestra, rabiscando seus gatafunhos para a posteridade. Na atmosfera descontraída do teatro, podia-se respirar séculos de saber filosófico. Um rapagote discorria com entusiasmo sobre as ideias zizekianas, deixando bem claro para seu interlocutor que não era possível entender o mestre sem antes ter lido Kant, Hegel e, naturalmente, Lacan. 

Já passava das 17 horas, quando um mediador de gestos calmos anunciou o nome de Slavoj Zizek, depois de falar os rapapés de praxe. Adentrando o palco pelo lado esquerdo – palavra! -, Zizek venceu a distância até a mesa num segundo, como se impulsionado por uma descarga elétrica. Aboletou-se em sua cadeira, tirou o relógio do pulso e o pôs sobre a mesa para controlar o tempo, conferiu algumas folhas amarfanhadas e deu início a sua peroração. 

Em poucos minutos, Zizek levou a plateia à primeira gargalhada da tarde, uma entre muitas que viriam, graças a sua habilidade em entremear conceitos, piadas e exemplos extraídos de fatos do cotidiano, principalmente de filmes de Hollywood, muitos deles analisados pelo filósofo à luz da psicanálise lacaniana. Onze de setembro de 2001, crise financeira de 2008, Bill Gates, Obama, Hitler, Stalin, tudo funciona como referência para suas diatribes contra aquilo que chama de “farsa do liberalismo econômico”. 

Por suas referências marxistas e menções a Stalin, Zizek tem sido acusado por seus críticos de defender certa postura totalitária. Mas ele tenta pôr os pingos nos ii. “Marx defendia a transformação das relações sociais. Não há mensagem totalitária nisso”. Aplausos, risadas, excitação da plateia, que se diverte como se estivesse num programa de auditório. Em sua palestra, Zizek faz questão de eliminar as camadas vetustas do léxico filosófico. Nada de episteme, doxa, gnose ou assemelhados. Com uma dicção peculiar que o faz acentuar a pronúncia dos esses como num crepitar, Zizek fala um inglês carregado porém fluente, pondo por terra uma certa máxima tupiniquim de que só é possível filosofar em alemão. 

Por seus gestos irrequietos, o filósofo recebeu o epíteto de “Elvis da filosofia”, que ele aceitou. No palco, seus cacoetes incluem esfregões reiterados no nariz, que descem para o queixo e terminam com um safanão nos cabelos. Sua torrente verbal é também pontuada por puxões na camisa e extrema agitação das mãos, como se quisesse exortar uma multidão invisível. Zizek mostrou que é um ótimo frasista. “Não sou um catastrofista”, disse ele, numa alusão ao título de sua palestra – “Revolução: quando a situação é catastrófica, mas não é grave”. E, para quem o acusa de professar o memento mori do capitalismo, surpreendeu o público com mais uma colocação aparentemente contraditória. “O capitalismo não é só exploração, mas uma forma eficiente de organização”. Como um bom provocador, cutucou velhas bandeiras (“A sustentabilidade é um mito”). E expôs o receituário que explica o fracasso das revoluções passadas: “Se você tem um projeto, tem que incluir como esse projeto vai dar errado”. Por seu sabor atemporal, a frase poderia ser usada como um ensinamento típico da autoajuda. Por que não? Zizek atingiu o proscênio ao teorizar os fenômenos sociais e culturais por meio de uma análise que põe no mesmo liquificador a psicanálise de Lacan, a filosofia de Marx e Hegel. Numa de suas frases, proferida em alto e bom som, ele disse: “Sou um hegeliano”. A rigor, não é o primeiro filósofo a atingir o status de pensador discutido por um público mais amplo. Outros luminares já frequentaram as hostes midiáticas com leituras criativas da sociedade e, como que obliterados por uma espécie de lei implacável do esquecimento, retornaram aos muros da academia e aos índices remissivos. Enumeremos alguns: Claude Lefort e Cornelius Castoriadis, nos anos 1980; Noam Chomsky e Jürgen Habermas, nos anos 1990; Pierre Bourdieux e Jean Baudrillard, nos anos 2000. Grosso modo. 

A cortina já estava prestes a descer, quando Zizek disparou mais uma de suas frases de efeito: “O comunismo é o grande problema central hoje”. Seu tempo de palestra acabou. Aplausos frenéticos, como ao final de um show. Zizek surpreendeu-se com os primeiros papelotes que chegaram às mãos do mediador, contendo as perguntas enviadas pela plateia. O filósofo levou as mãos à cabeça, num teatral gesto de desespero. Mas respondeu todas, com o mesmo vigor com que iniciou sua palestra. Deixou o palco com o mesmo arranque com que entrou, e lá ao canto do palco foi cumprimentado por Emir Sader e outras personalidades que foram ouvi-lo. Zizek é pop.